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	<title>tradicao-familiar &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "tradicao-familiar"</description>
	<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 02:38:59 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

<item>
<title><![CDATA[As Leis de Família (Derecho de Familia)]]></title>
<link>http://lella.wordpress.com/?p=134</link>
<pubDate>Fri, 14 Mar 2008 11:15:49 +0000</pubDate>
<dc:creator>LELLA</dc:creator>
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<description><![CDATA[
As Leis de Família (Derecho de Familia). 2006. Argentina. Direção e Roteiro: Daniel Burman (O Ab]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://lella.wordpress.com/files/2008/03/leis-de-familia03.jpg" title="leis-de-familia03.jpg"><img src="http://lella.wordpress.com/files/2008/03/leis-de-familia03.jpg" alt="leis-de-familia03.jpg" height="239" width="367" /></a></p>
<p><font color="#663333"><b>As Leis de Família (Derecho de Familia)</b>. 2006. Argentina. Direção e Roteiro: Daniel Burman (O Abraço Partido). Elenco: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Eloy Burman, Julieta Díaz, Adriana Aizemberg. Gênero: Drama. Duração: 102 minutos. Classificação: 12 anos.<br />
</font></p>
<p><font color="#663333">Parece uma história banal, mas como nos é contada, é que faz toda a diferença!</font></p>
<p><font color="#663333"> Centrada num período na vida de três gerações: pai, filho e neto. Mais precisamente numa re-aproximação entre pai e filho. Muito embora até podemos lembrar de outros filmes onde há reencontros assim. Mas esse foca o de seguir a carreira do pai. Pesando isso. Numa de filho de peixe, peixinho é? Bate até o medo de ser uma mera cópia. Até onde manter a tradição familiar. O peso do sobrenome. A carreira como um tipo de herança genética. O querer ser diferente, mesmo sendo igual.<br />
</font></p>
<p><font color="#663333">O filme inicia com o Ariel nos... nos apresentando seu pai. Contando em off. Sob o ângulo dele. Hehe... É divertido! Até porque enquanto ele nos mostra o... o jogo de cena que seu pai faz diariamente... ao longo do filme nós identificamos que ele também tem o seu. Os dois então teriam mais pontos em comum? Será? Como ele mesmo salientou: "<b>Mas não gosto de Direito. Gosto da Justiça.</b>" Direito e Justiça não trabalhariam juntos para uma mesma causa?</font></p>
<p><font color="#663333">Esse período onde o seu pai volta a se aproximar, ele se "descobre" ser pai. Seria a criança que traria o... o "Acorda!"? Temos o mesmo sangue... Já registrando aqui que o menino é um encanto! Ele atua brilhantemente! Me deixou encantada ao longo do filme. E me levou as lágrimas no final!</font></p>
<p><font color="#663333">Enquanto passam um jeito livre de ser, com desenvoltura em suas "atuações", quer seja lecionando, um; ou, advogando, o outro. Nesse reencontro ficam sem saber o que falar; ou como contar suas próprias histórias entre si.</font></p>
<p><font color="#663333"> Por vezes, algumas pessoas ficam tão presas as suas próprias leis internas, a sua rotina, suas retidões... Que nem percebem que há numa simples aproximação um pedido silencioso de um carinho; de um afeto. Que também quando percebem algo, ao usarem uma balança diferente terminam por interpretar do seu jeito. Acontece, que cada um tem um jeito de contar, de transmitir... Mais do que tentar simplesmente adivinhar, o bom é em ouvir. Mesmo que a linguagem usada seja outra, de difícil acesso. </font></p>
<p><font color="#663333">Para estudantes de Direitos, mais que recomendado! Prestem uma atenção mais detalhada a cena onde um cara interrompe uma aula. E para nós outros, também. Assistam! É um belo filme! Amei!</font></p>
<p><font color="#663333">Nota: 10.</font></p>
<p><font color="#663333">Por: Valéria Miguez.</font></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Rachid, o menino da televisão]]></title>
<link>http://dialogodegeracoes.wordpress.com/2007/10/04/rachid-o-menino-da-televisao/</link>
<pubDate>Thu, 04 Oct 2007 21:13:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
<guid>http://dialogodegeracoes.pt-br.wordpress.com/2007/10/04/rachid-o-menino-da-televisao/</guid>
<description><![CDATA[Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos e t]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos e travessos.</p>
<p align="justify">Quando chega a casa, vindo da escola, atira com a pasta para um canto e liga a televisão. Lancha diante do pequeno ecrã. Não tira os olhos das imagens, mesmo quando entorna a chávena de chocolate quente. A mãe chama-o repetidas vezes, mas Rachid nem lhe responde.</p>
<p align="justify">Não a ouve. É como se nem estivesse ali. As imagens fascinam-no, enfeitiçam-no, puxam-no para dentro da televisão. Já não obedece ao pai nem à irmã mais velha. Estão todos cansados de o chamar à razão. Danièle, a sua professora, podia impedi-lo de ver televisão, mas não mora com ele. Rachid tem receio dela, porque Danièle é bonita.</p>
<p align="justify">Está apaixonado por ela. Quando fala da professora, cora e gagueja. Diz: “A Danièle tem olhos azuis e eu gosto de olhos azuis.” Na realidade, a professora tem olhos verdes. Só que, para ele, são azuis e sonha muito com eles. Os pais de Rachid sabem que só ela pode rivalizar com a televisão. Um dia, o menino ficou doente e Danièle veio visitá-lo. Trouxe-lhe um livro, Os Contos de Goha. Mal a viu entrar, Rachid apagou a televisão e olhou-a com os olhos de um apaixonado. Nem sequer abriu o livro.</p>
<p align="justify">Ainda bem que Rachid é inteligente. Pode fazer os deveres enquanto assiste a um episódio de uma série americana, ou enquanto joga O Jogo Louco. Mas, às vezes, confunde as perguntas do jogo e as da professora, a voz do animador e os apelos constantes da mãe.</p>
<p align="justify">Então, tudo se mistura na sua cabeça e perde o sono.</p>
<p align="justify">Um dia, dá-se uma catástrofe! O televisor avaria! Triste e infeliz, Rachid anda às voltas no apartamento. Tenta reparar o aparelho, mas em vão. Pede à mãe para ir a casa dos vizinhos ver televisão, mas os vizinhos estão fora. Põe os auscultadores do seu walkman e fecha os olhos, mas não consegue ver nada. Não quer abrir a pasta nem beber o chocolate quente. Está de mau humor e trata mal a irmã. Quando o pai chega a casa, Rachid parte um prato. É castigado e vai para o quarto sem jantar. Chora e amaldiçoa este tipo de técnica que lhe prega partidas de mau gosto. “Que vai ser de mim sem televisão?”pergunta-se. “Vou tornar-me num sem-abrigo, num vagabundo. Já não tenho imagens para me sustentar! Que raio de aparelho é este que já não funciona? Vou escrever para os jornais, para que as pessoas não comprem mais esta marca…” Nessa noite, tem um pesadelo: imagens de todas as cores invadem o quarto e rasgam-lhe os livros e os cadernos. Saem de um televisor desligado, atravessam as paredes, as janelas, até mesmo o pequeno corpo de Rachid, que se encontra encostado a um canto da cama, cheio de medo e a tremer. Deitam os objectos ao chão, derrubam o candeeiro da mesinha de cabeceira e partem a moldura com a fotografia de Rachid e de Danièle. O menino carrega no comando com todas as forças, mas as imagens não param: nem o barulho que fazem, nem a desordem que provocam. Alertado pelos seus gritos, o pai vem ver o que se passa. O filho está lavado em lágrimas e encharcado em suor. O pai toma-o nos braços e promete-lhe uma viagem a Marrocos, nas férias da Páscoa. Em breve, o televisor é reparado e Rachid retoma os seus hábitos antigos.</p>
<p align="justify">— As imagens não passam de imagens — diz-lhe o pai. — Que me dizes a tentarmos descobrir, por detrás dessas imagens, paisagens maravilhosas, montanhas extraordinárias, florestas imensas, árvores mais altas do que o nosso prédio, planícies infinitas, animais selvagens e um céu azul de dia e estrelado à noite…?</p>
<p align="justify">— Não, papá. Posso ver tudo isso na televisão, a cores, em grande plano e com música. Na montanha, não há música.</p>
<p align="justify">— Há o canto dos pássaros, o sussurro das árvores, os gritos das crianças a brincar, o soprar do vento. Sobretudo há silêncio, pode-se ouvir o silêncio…</p>
<p align="justify">— Não preciso de ir tão longe. Tenho tudo isso na televisão. Quando não gosto do que estou a ver, mudo de canal. A montanha está sempre lá, não podes mudá-la de lugar. Estou bem aqui. Não preciso de me mexer. Não preciso de me separar dos meus amigos. Também não tenho vontade de faltar ao concurso de patins. Aqui não tenho frio, nem preciso de comer com as mãos. Não me apetece escutar o silêncio. Não me apetece ir a Marrocos.</p>
<p align="justify">— Mas, em Marrocos, estaremos em férias.</p>
<p align="justify">— Eu sei que na montanha não há televisão. Disseste-mo. O avô nem sequer tem electricidade.</p>
<p align="justify">— Na montanha, não precisamos de televisão. É maravilhoso: temos a realidade em vez das imagens.</p>
<p align="justify">— O avô nem sequer fala francês.</p>
<p align="justify">— Fala alguma coisa, assim como tu percebes um pouco de árabe. Vais ver que se vão entender lindamente.</p>
<p align="justify">— Não, não quero deixar a televisão. Vão passar a Missão Impossível.</p>
<p align="justify">— Quando lá estiveres, vais esquecer a televisão.</p>
<p align="justify">— Não, papá, nem pensar.</p>
<p align="justify">No dia seguinte, o pai traz-lhe um bonito livro sobre as montanhas de Marrocos. Rachid mal olha para o livro.</p>
<p align="justify">— Não presta para nada! — diz ao pai.</p>
<p align="justify">O pai sente que também ele não presta. Sente-se triste e incapaz de convencer o filho de oito anos a acompanhá-lo à sua aldeia natal. A televisão rouba-lhe o filho. Parti-la não serviria de nada.</p>
<p align="justify">A criança está enfeitiçada e os pais sentem-se infelizes. Decidem ir falar com a professora.</p>
<p align="justify">— O Rachid passa todo o tempo em frente da televisão. Tentámos tudo para o afastar, mas em vão. A minha mulher e eu tivemos a ideia de o mandar para Marrocos, para casa do avô, nas férias da Páscoa. Pelo menos, lá não há televisão. O avô dele é um contador de histórias nato. Conhece a natureza, as estrelas, os vulcões, as montanhas, os animais… Ajude-nos a convencê-lo a ir a Marrocos. Se o convencer, ele vai…</p>
<p align="justify">Antes de partir, o pai oferece a Danièle um livro sobre as montanhas de Marrocos.</p>
<p align="justify">Alguns dias mais tarde, enquanto trocava de canal freneticamente, Rachid perguntou ao pai:</p>
<p align="justify">— Papá, é verdade que o avô tem um telescópio?</p>
<p align="justify">Apanhado de surpresa, o pai respondeu:</p>
<p align="justify">— Claro, usa-o para observar as estrelas.</p>
<p align="justify">— Papá, é verdade que na escola corânica não é preciso fazer deveres?</p>
<p align="justify">— Sim, é verdade. Passas todo o tempo a ler o Corão, o livro sagrado dos Muçulmanos. Só isso.</p>
<p align="justify">— Papá, é verdade que em Marrocos o céu está sempre azul?</p>
<p align="justify">— Sim, embora os camponeses gostem que chova de vez em quando porque temem as secas. Uma terra sem água pode morrer.</p>
<p align="justify">— Papá, é verdade que o céu de Marrocos é o mais estrelado do mundo?</p>
<p align="justify">— O céu está quase sempre coberto de estrelas. Até se atropelam para velar sobre os sonhos dos pequenos Marroquinos…</p>
<p align="justify">— Papá, posso levar a tua malinha de couro, aquela que nunca me queres emprestar?</p>
<p align="justify">— Sim, filho, podes.</p>
<p align="justify">— Se me deixasses ver um pouco mais de televisão antes de partir… já que em Marrocos não vou poder ver…sentiria menos a falta dela…</p>
<p align="justify">Acordo firmado. Mas Rachid tem pena que o pai se recuse a comprar um videogravador para gravar os programas que não poderá ver. Diz aos colegas da escola que vai fazer uma expedição a África! “Ao norte de África, mais precisamente a Marrocos, o país onde as estrelas quase se atropelam para velar sobre os sonhos das crianças…”</p>
<p align="justify">Na Primavera, Marraquexe está um pouco mais ocre do que habitualmente. As montanhas conservam ainda alguma neve nos cumes. Os prados estão verdes, o ar é seco e as pessoas estão bem dispostas. Gostam de brincar, de contar histórias e de organizar festas. De entre todos os habitantes de Marrocos, os cidadãos de Marraquexe são os que têm mais sentido de humor. Vêem a vida pelo lado bom e são hospitaleiros.</p>
<p align="justify">Rachid o e o pai chegam ao aeroporto ao fim da manhã. Antes de apanharem a camioneta para irem para a aldeia do avô, vão à cidade comer num restaurante, situado em frente da praça Jamaa El Fna. É lá que se encontram os contadores de histórias, os saltimbancos e os encantadores de serpentes. Comem espetadas e bebem chá de menta.</p>
<p align="justify">Rachid reparou num pequeno televisor que transmite imagens de um homem cego a falar de religião. O homem tem um turbante branco, está sentado sobre esteiras numa mesquita e explica versículos do Corão. “Deus criou os homens todos iguais”, diz, erguendo os olhos para o alto, “apenas a fé os distingue; só a sua ligação à virtude e o respeito pela palavra de Deus estabelecem diferenças entre eles…”</p>
<p align="justify">Rachid fixa o ecrã, de boca aberta. Nunca viu este programa em lado algum. — No Islão — diz o pai — não há racismo. Todos os homens que acreditam em Deus são iguais.</p>
<p align="justify">Rachid replica:</p>
<p align="justify">— E os que não acreditam em Deus?</p>
<p align="justify">— Estão errados.</p>
<p align="justify">— E eu, acredito em Deus?</p>
<p align="justify">— Sim, Rachid. Deus é o universo, a bondade, o céu…</p>
<p align="justify">— Sim, acredito no céu coberto de estrelas… enfim, tenho de o ver.</p>
<p align="justify">— Vê-lo-ás esta noite.</p>
<p align="justify">Na camioneta, as pessoas atropelam-se e discutem por causa de um lugar para o qual foram vendidos dois bilhetes. Alguns passageiros intervêm e tudo acaba em gargalhada. Os olhos de Rachid estão esbugalhados. Registam tudo. É como se estivesse noutro mundo. A expedição a África acaba de começar!</p>
<p align="justify">Há camponeses que entram com galos e perus. Levam-nos de volta para a quinta, porque o mercado não é bom desde que deixou de chover. Um homem pega num pão redondo, corta-o em quatro partes e oferece uma delas a Rachid, que hesita. O pai estende a mão, pega no pão e agradece ao homem. — Nunca deves recusar um pedaço de pão ou um copo de água que te ofereçam. É uma tradição nossa.</p>
<p align="justify">Um passageiro põe um aparelho de rádio no máximo, para ouvir um relato de futebol. Fuma cigarro atrás de cigarro. Ninguém ousa dizer-lhe nada. Um homem diz ao pai de Rachid:</p>
<p align="justify">— Não ligues; é destrambelhado.</p>
<p align="justify">Quando chegam ao sopé da montanha, já Rachid dorme nos braços do pai. O avô espera-os, com um candeeiro a gás na mão. A noite está escura e sopra um vento ligeiro. Quando abre os olhos, Rachid aninha-se contra o avô, Jeddi. A casa tem um pátio quadrado descoberto. As paredes são feitas de adobe, uma mistura de terra batida, palha e hulha. Em frente à entrada, fica o estábulo onde dormem as vacas. Rachid passeia no pátio, espantado com o que vê. É a primeira vez que vê a casa do avô. Costumava ver Jeddi em Marraquexe, em casa do tio que tem uma loja de frutos secos, mesmo à entrada da medina.</p>
<p align="justify">Rachid não tem sono. Levanta a cabeça e conta as estrelas. Fica com vertigens. Resiste ao sono, apesar da fadiga e do esforço da mudança. Quer passar a primeira noite a contemplar o céu. À meia-noite, fecha os olhos e adormece, com a cabeça pousada nos joelhos de Jeddi.</p>
<p align="justify">No dia seguinte, o pai vai-se embora e deixa Rachid a brincar com os cães, os gatos, os coelhos e o burro.</p>
<p align="justify">— Vou tratar de problemas com o teu tio em Marraquexe. Venho buscar-te dentro de dez dias. Porta-te bem e ouve o teu avô.</p>
<p align="justify">— Não te preocupes, papá. Aqui não há televisão. Espero que ele me conte histórias.</p>
<p align="justify">À tarde, quando os animais se recolheram, Jeddi pega na mão de Rachid e leva-o para debaixo de uma grande árvore. Na realidade, a árvore é pequena.</p>
<p align="justify">— Dizemos que é grande, não pelo tamanho, mas pela idade e pela calma que nos incute — explica Jeddi. — É uma argânia. Dá um fruto semelhante às azeitonas pretas. As cabras comem-no, mas rejeitam os caroços. Estes são apanhados e postos a secar ao sol durante toda uma estação. Quando os esmagamos com a mó, dão um líquido negro, que, uma vez purificado, se transforma em azeite. Um azeite suculento e raro: o azeite de argânia. É melhor que o azeite da oliveira.</p>
<p align="justify">— Não gosto de azeite. Em França, usamos manteiga. Faz-se publicidade a um azeite leve, que não faz engordar. Na televisão, aconselham-nos a comer manteiga.</p>
<p align="justify">Rachid aprende a fazer pão com a avó. Assiste a toda a operação: chega mesmo a ver os pães a sair do forno, que está situado no meio do pátio. Depois, vai dar um passeio com o avô até à aldeia. Caminham por estradas cheias de pó. A praça da aldeia assemelha-se a uma cerca onde se guardam os animais. Há duas lojas que vendem de tudo: Coca-Cola, pastilha elástica, detergente, óleo de amendoim, pregos, foices, lâminas de barbear, candeeiros a petróleo ou a gás, ovos, farinha, aspirinas, cordas, enxadas, apanhadores, rodas de tractor, bidões de plástico, pão, cadernos de escola e até mesmo um pequeno televisor japonês a pilhas!</p>
<p align="justify">Jeddi pára diante da loja, que também vende café, e senta-se numa caixa. Rachid bebe uma Fanta com sofreguidão. As pessoas vêm cumprimentar Jeddi e beijar Rachid, a quem oferecem presentes: bombons, bebidas, dinheiro, um chapéu de palha, uma túnica de lã, favas grelhadas, azeitonas, tâmaras e figos secos.</p>
<p align="justify">Todos se conhecem e todos falam da mesma coisa: da falta de chuva. Estão persuadidos de que a chegada de Rachid lhes trará boa sorte e fará vir a chuva há tanto esperada. Diz um homem:</p>
<p align="justify">— Este menino veio anunciar-nos a chuva; vê-se pela cara dele; está calado, mas tudo indica que é portador de boas notícias.</p>
<p align="justify">No caminho de regresso a casa, Rachid farta-se de fazer perguntas ao avô. Reparou que a água é escassa, que não há água nas torneiras. É preciso ir buscá-la aos poços, filtrá-la e fervê-la antes de a beber.</p>
<p align="justify">Pelo caminho, repara que há mais mulheres do que homens a trabalhar nos campos.</p>
<p align="justify">— Esta noite, vou falar-te das estrelas — diz-lhe Jeddi.</p>
<p align="justify">Rachid adormece depois do almoço e tem um sonho muito bonito: vê a mãe, que está vestida como as mulheres dos campos. Dança e canta à chuva. Os homens misturam-se com as mulheres e dançam também para agradecer ao céu ter-lhes dado chuva e esperança.</p>
<p align="justify">Quando acorda, o céu está cheio de nuvens negras e todos esperam pela tempestade. Começam, então, a cair chuvas diluvianas sobre a região.</p>
<p align="justify">À noite, os vizinhos vêm ver o menino que lhes trouxe sorte. Colocam uma mão sobre a sua cabeça e aproximam os lábios para a beijar.</p>
<p align="justify">Nessa noite, Rachid tem vontade de estar em casa, com os pais e a irmã. Pensa na televisão, mas sente que já não lhe faz muita falta. Não percebe o que se está a passar com ele. Desfilam imagens pela sua cabeça. Imagens de séries e de filmes que costumava ver em França. Essas imagens misturam-se com as da aldeia. Lutam umas com as outras e Rachid faz de árbitro. Torce pelas imagens da aldeia: não são mais belas, mas são mais misteriosas.</p>
<p align="justify">No dia seguinte, depois do jantar, Jeddi pega na mão de Rachid e sentam-se num velho tapete, à entrada de casa. Diz ao neto:</p>
<p align="justify">— Ergue os olhos para o céu. Contempla-o sem pressa. Habitua o teu olhar à obscuridade. Vê a Lua em quarto crescente. Diz a ti mesmo que todos somos filhos do céu. Alguém disse que as nossas raízes estão nas estrelas. Isso significa que todos somos filhos e filhas do universo.</p>
<p align="justify">— Vejo muitas estrelas…</p>
<p align="justify">— Só podes vê-las bem, depois de os teus olhos se terem habituado à obscuridade.</p>
<p align="justify">— O que é uma estrela?</p>
<p align="justify">— É uma imensa bola de luz. A estrela que está mais próxima de nós, e que é também a mais conhecida, é o Sol. Ilumina o mundo e fornece-lhe calor.</p>
<p align="justify">— É o senhor do universo…</p>
<p align="justify">— É o nosso mestre e amigo. Mas gosta de nós de longe. Se se aproximar demasiado de nós, os seus raios queimam-nos. Impede as nuvens de se formarem e a terra fica sem água. Uma terra sem água é uma infelicidade para todos nós.</p>
<p align="justify">— É a seca…</p>
<p align="justify">— Na nossa região, a seca é sinónimo de infelicidade. De cada vez que ela surge, os camponeses abandonam as terras e vão mendigar para a cidade. Quem tiver água está salvo. É por isso que ter água é mais importante do que ter terra.</p>
<p align="justify">— E a Terra? Para onde vai a Terra?</p>
<p align="justify">— A Terra não é uma estrela, mas sim um planeta. Gira sem cessar à volta do Sol.</p>
<p align="justify">— O que procura a Terra?</p>
<p align="justify">— Faz o que fazem os outros planetas. Sabes, não somos os únicos a girar em torno do Sol. Ao todo, há sete planetas: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Platão e a Terra. A Terra dá-nos o dia e a noite. A noite traz-nos os sonhos e os sonhos ajudam-nos a viver.</p>
<p align="justify">— Jeddi, como sabes tudo isso?</p>
<p align="justify">— Quando tinha a tua idade, era pastor. Levantava-me antes do sol raiar e levava as vacas a pastar longe da aldeia. Tinha doze vacas à minha guarda. Só tinha por companhia um cão, Messaoud. Ia à procura de erva para os meus animais. Tal como os meus antepassados, contemplava o céu, para saber o que se ia passar na terra: se ia chover, se os ventos iam empurrar as nuvens na direcção certa. Habituei-me a consultar o céu para tudo. O meu pai dizia que cada ser humano tem uma estrela no céu. À noite, isolava-me e perscrutava o céu, em busca da minha estrela. À força de tanto o observar, aprendi bastantes coisas e o meu pai explicava-me outras. Conhecia o nome de muitas estrelas. Dizia-me que, para nós, Árabes, a Ursa Maior é como uma caravana no horizonte. Se a seguirmos, ela conduzir-nos-á à nossa estrela. Então, eu caminhava pelo céu durante horas, montado na Via Láctea, à procura da minha estrela.</p>
<p align="justify">— Como é a tua estrela? Como se chama?</p>
<p align="justify">— Dei-lhe o nome da minha primeira filha, Nejma, que morreu muito jovem. Sei que ela foi ter com a minha estrela. Instalou-se na sua luz e ficou coberta da sua pureza e da sua beleza.</p>
<p align="justify">— Podes mostrar-ma?</p>
<p align="justify">— Gostaria muito, mas os meus olhos já não vêem muito bem, e tenho dificuldade em distinguir os astros no céu. Mas tu podes encontrá-la quando fores à procura da tua própria estrela.</p>
<p align="justify">— Em Paris, o céu está sempre encoberto. O que hei-de fazer para encontrar a minha estrela? Como a reconhecerei?</p>
<p align="justify">— Reconhecê-la-ás sem esforço. Sentirás, com convicção, que se trata dela.</p>
<p align="justify">— Tenho de vir viver para a aldeia…</p>
<p align="justify">— Não forçosamente. Vens ver-me sempre que estejas em férias. No Verão, por exemplo…</p>
<p align="justify">— Este Verão, em França, vão passar um filme que todos os miúdos americanos já viram. Chama-se A nova guerra das estrelas. O herói chama-se Jeddi, como tu!</p>
<p align="justify">— É avô, como eu?</p>
<p align="justify">— Não, não é casado!</p>
<p>— Contas-me depois? Gostava que me contasses o que vês na televisão. De vez em quando, vamos à aldeia ver filmes egípcios. Sempre é uma mudança.</p>
<p align="justify">Rachid adormece nos joelhos do avô.</p>
<p align="justify">No dia seguinte, acompanha-o ao mercado. Partem numa mula. Há camponeses de terras vizinhas a venderem os seus produtos. Jeddi não vende nada, só mostra o mercado ao neto. As pessoas cumprimentam-no. Também há contadores de histórias, acrobatas, mágicos. Um homem vende flocos que custam muito dinheiro. É muito alto e está vestido de Super-Homem. Diz que a mãe o alimentou com estes flocos e que, por isso, se tornou um Super-Homem. Está calor e o homem transpira muito. As pessoas riem-se. Algumas compram os flocos e comem-nos mesmo ali. Mas logo mudam de cor e cospem fora o que comeram.</p>
<p align="justify">Todas as noites, avô e neto se sentam no mesmo tapete e observam o céu. Rachid está impaciente porque não consegue encontrar a sua estrela.</p>
<p align="justify">— Há milhares de estrelas. É impossível vê-las todas, mesmo com o auxílio de aparelhos. Sê paciente e passeia pelo rio celeste. Quando a tua estrela te vir, vem ter contigo e apresenta-se. Pode acontecer hoje, amanhã ou no próximo ano.</p>
<p align="justify">Nesse momento, uma cauda luminosa atravessou o céu a toda a velocidade. Rachid exclamou: — É ela! Corre como eu!</p>
<p align="justify">— O que viste é uma estrela cadente. Provém de poalha celeste. Está a fugir de alguma coisa, talvez do Sol. Não é a tua estrela.</p>
<p align="justify">Todas as noites, Rachid pensa ter visto a sua estrela. Quando o pai o vem buscar para voltarem para França, encontra o filho triste e insatisfeito.</p>
<p align="justify">Jeddi abraça o neto com força: — No Verão, o céu está mais limpo e as estrelas vêem-se com mais facilidade. Vais ter mais sorte. Estarei à tua espera.</p>
<p align="justify">Na viagem de regresso, Rachid conta ao pai tudo o que aprendeu. Na escola, oferece à professora uma pulseira de prata que a avó lhe deu. Só fala de Jeddi, das estrelas, dos planetas e de Marrocos. Em casa, diante da televisão, está distraído. Não que já não queira ver, mas sabe agora que há outras maravilhas, outras imagens. Basta levantar os olhos para o céu e interrogar as estrelas. Numa noite de Verão, sentado num tapete junto de Jeddi, acaba por encontrar a sua estrela.</p>
<p align="justify">As imagens do ecrã têm menos mistério do que uma pequena árvore chamada argânia, ou do que um mercado árabe cheio de camponeses, animais e Super-Homens falsos.</p>
<p align="justify">Mas Danièle continua a ter olhos azuis.</p>
<p>Tahar Ben Jelloun/Baudoin<br />
<em>Rachid, l’enfant de la télé</em><br />
Paris, Éditions du Seuil, 1995<br />
<em>Texto Adaptado</em><br />
De <a href="http://verticalizar.wordpress.com/">Educar com Histórias</a></p>
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<title><![CDATA[Rachid, o menino da televisão]]></title>
<link>http://geracoesedialogo.wordpress.com/2007/10/04/rachid-o-menino-da-televisao/</link>
<pubDate>Thu, 04 Oct 2007 21:13:01 +0000</pubDate>
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Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="center" style="text-align:center;margin:0;"><strong><span style="font-size:14.5pt;color:#003366;font-family:Verdana;"></span></strong><span style="color:#003366;font-family:Verdana;"></span></p>
<p style="line-height:125%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:10pt;color:#003366;line-height:125%;font-family:Verdana;"></span></p>
<p><span style="font-size:10pt;color:#003366;line-height:125%;font-family:Verdana;"></span><span style="font-size:10pt;color:#003366;line-height:125%;font-family:Verdana;"></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:10pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;"></span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos e travessos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Quando chega a casa, vindo da escola, atira com a pasta para um canto e liga a televisão. Lancha diante do pequeno ecrã. Não tira os olhos das imagens, mesmo quando entorna a chávena de chocolate quente. A mãe chama-o repetidas vezes, mas Rachid nem lhe responde. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Não a ouve. É como se nem estivesse ali. As imagens fascinam-no, enfeitiçam-no, puxam-no para dentro da televisão. Já não obedece ao pai nem à irmã mais velha. Estão todos cansados de o chamar à razão. Danièle, a sua professora, podia impedi-lo de ver televisão, mas não mora com ele. Rachid tem receio dela, porque Danièle é bonita. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Está apaixonado por ela. Quando fala da professora, cora e gagueja. Diz: "A Danièle tem olhos azuis e eu gosto de olhos azuis." Na realidade, a professora tem olhos verdes. Só que, para ele, são azuis e sonha muito com eles. Os pais de Rachid sabem que só ela pode rivalizar com a televisão. Um dia, o menino ficou doente e Danièle veio visitá-lo. Trouxe-lhe um livro, <em>Os Contos de Goha</em>. Mal a viu entrar, Rachid apagou a televisão e olhou-a com os olhos de um apaixonado. Nem sequer abriu o livro.</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Ainda bem que Rachid é inteligente. Pode fazer os deveres enquanto assiste a um episódio de uma série americana, ou enquanto joga <em>O Jogo Louco</em>. Mas, às vezes, confunde as perguntas do jogo e as da professora, a voz do animador e os apelos constantes da mãe.</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Então, tudo se mistura na sua cabeça e perde o sono. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Um dia, dá-se uma catástrofe! O televisor avaria! Triste e infeliz, Rachid anda às voltas no apartamento. Tenta reparar o aparelho, mas em vão. Pede à mãe para ir a casa dos vizinhos ver televisão, mas os vizinhos estão fora. Põe os auscultadores do seu walkman e fecha os olhos, mas não consegue ver nada. Não quer abrir a pasta nem beber o chocolate quente. Está de mau humor e trata mal a irmã. Quando o pai chega a casa, Rachid parte um prato. É castigado e vai para o quarto sem jantar. Chora e amaldiçoa este tipo de técnica que lhe prega partidas de mau gosto. "Que vai ser de mim sem televisão?"pergunta-se. "Vou tornar-me num sem-abrigo, num vagabundo. Já não tenho imagens para me sustentar! Que raio de aparelho é este que já não funciona? Vou escrever para os jornais, para que as pessoas não comprem mais esta marca…" Nessa noite, tem um pesadelo: imagens de todas as cores invadem o quarto e rasgam-lhe os livros e os cadernos. Saem de um televisor desligado, atravessam as paredes, as janelas, até mesmo o pequeno corpo de Rachid, que se encontra encostado a um canto da cama, cheio de medo e a tremer. Deitam os objectos ao chão, derrubam o candeeiro da mesinha de cabeceira e partem a moldura com a fotografia de Rachid e de Danièle. O menino carrega no comando com todas as forças, mas as imagens não param: nem o barulho que fazem, nem a desordem que provocam. Alertado pelos seus gritos, o pai vem ver o que se passa. O filho está lavado em lágrimas e encharcado em suor. O pai toma-o nos braços e promete-lhe uma viagem a Marrocos, nas férias da Páscoa. Em breve, o televisor é reparado e Rachid retoma os seus hábitos antigos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— As imagens não passam de imagens — diz-lhe o pai. — Que me dizes a tentarmos descobrir, por detrás dessas imagens, paisagens maravilhosas, montanhas extraordinárias, florestas imensas, árvores mais altas do que o nosso prédio, planícies infinitas, animais selvagens e um céu azul de dia e estrelado à noite…? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não, papá. Posso ver tudo isso na televisão, a cores, em grande plano e com música. Na montanha, não há música. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Há o canto dos pássaros, o sussurro das árvores, os gritos das crianças a brincar, o soprar do vento. Sobretudo há silêncio, pode-se ouvir o silêncio… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não preciso de ir tão longe. Tenho tudo isso na televisão. Quando não gosto do que estou a ver, mudo de canal. A montanha está sempre lá, não podes mudá-la de lugar. Estou bem aqui. Não preciso de me mexer. Não preciso de me separar dos meus amigos. Também não tenho vontade de faltar ao concurso de patins. Aqui não tenho frio, nem preciso de comer com as mãos. Não me apetece escutar o silêncio. Não me apetece ir a Marrocos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Mas, em Marrocos, estaremos em férias. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Eu sei que na montanha não há televisão. Disseste-mo. O avô nem sequer tem electricidade. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Na montanha, não precisamos de televisão. É maravilhoso: temos a realidade em vez das imagens. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O avô nem sequer fala francês. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Fala alguma coisa, assim como tu percebes um pouco de árabe. Vais ver que se vão entender lindamente. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não, não quero deixar a televisão. Vão passar a <em>Missão Impossível</em>.</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Quando lá estiveres, vais esquecer a televisão. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não, papá, nem pensar. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">No dia seguinte, o pai traz-lhe um bonito livro sobre as montanhas de Marrocos. Rachid mal olha para o livro. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não presta para nada! — diz ao pai. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">O pai sente que também ele não presta. Sente-se triste e incapaz de convencer o filho de oito anos a acompanhá-lo à sua aldeia natal. A televisão rouba-lhe o filho. Parti-la não serviria de nada. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">A criança está enfeitiçada e os pais sentem-se infelizes. Decidem ir falar com a professora. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O Rachid passa todo o tempo em frente da televisão. Tentámos tudo para o afastar, mas em vão. A minha mulher e eu tivemos a ideia de o mandar para Marrocos, para casa do avô, nas férias da Páscoa. Pelo menos, lá não há televisão. O avô dele é um contador de histórias nato. Conhece a natureza, as estrelas, os vulcões, as montanhas, os animais… Ajude-nos a convencê-lo a ir a Marrocos. Se o convencer, ele vai… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Antes de partir, o pai oferece a Danièle um livro sobre as montanhas de Marrocos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Alguns dias mais tarde, enquanto trocava de canal freneticamente, Rachid perguntou ao pai: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Papá, é verdade que o avô tem um telescópio? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Apanhado de surpresa, o pai respondeu: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Claro, usa-o para observar as estrelas. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Papá, é verdade que na escola corânica não é preciso fazer deveres? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Sim, é verdade. Passas todo o tempo a ler o Corão, o livro sagrado dos Muçulmanos. Só isso. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Papá, é verdade que em Marrocos o céu está sempre azul? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Sim, embora os camponeses gostem que chova de vez em quando porque temem as secas. Uma terra sem água pode morrer. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Papá, é verdade que o céu de Marrocos é o mais estrelado do mundo? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O céu está quase sempre coberto de estrelas. Até se atropelam para velar sobre os sonhos dos pequenos Marroquinos… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Papá, posso levar a tua malinha de couro, aquela que nunca me queres emprestar? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Sim, filho, podes. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Se me deixasses ver um pouco mais de televisão antes de partir… já que em Marrocos não vou poder ver…sentiria menos a falta dela… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Acordo firmado. Mas Rachid tem pena que o pai se recuse a comprar um videogravador para gravar os programas que não poderá ver. Diz aos colegas da escola que vai fazer uma expedição a África! "Ao norte de África, mais precisamente a Marrocos, o país onde as estrelas quase se atropelam para velar sobre os sonhos das crianças…" </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Na Primavera, Marraquexe está um pouco mais ocre do que habitualmente. As montanhas conservam ainda alguma neve nos cumes. Os prados estão verdes, o ar é seco e as pessoas estão bem dispostas. Gostam de brincar, de contar histórias e de organizar festas. De entre todos os habitantes de Marrocos, os cidadãos de Marraquexe são os que têm mais sentido de humor. Vêem a vida pelo lado bom e são hospitaleiros. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid o e o pai chegam ao aeroporto ao fim da manhã. Antes de apanharem a camioneta para irem para a aldeia do avô, vão à cidade comer num restaurante, situado em frente da praça Jamaa El Fna. É lá que se encontram os contadores de histórias, os saltimbancos e os encantadores de serpentes. Comem espetadas e bebem chá de menta. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid reparou num pequeno televisor que transmite imagens de um homem cego a falar de religião. O homem tem um turbante branco, está sentado sobre esteiras numa mesquita e explica versículos do Corão. "Deus criou os homens todos iguais", diz, erguendo os olhos para o alto, "apenas a fé os distingue; só a sua ligação à virtude e o respeito pela palavra de Deus estabelecem diferenças entre eles…" </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid fixa o ecrã, de boca aberta. Nunca viu este programa em lado algum. — No Islão — diz o pai — não há racismo. Todos os homens que acreditam em Deus são iguais. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid replica: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— E os que não acreditam em Deus? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Estão errados. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— E eu, acredito em Deus? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Sim, Rachid. Deus é o universo, a bondade, o céu… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Sim, acredito no céu coberto de estrelas…enfim, tenho de o ver. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Vê-lo-ás esta noite. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Na camioneta, as pessoas atropelam-se e discutem por causa de um lugar para o qual foram vendidos dois bilhetes. Alguns passageiros intervêm e tudo acaba em gargalhada. Os olhos de Rachid estão esbugalhados. Registam tudo. É como se estivesse noutro mundo. A expedição a África acaba de começar!</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Há camponeses que entram com galos e perus. Levam-nos de volta para a quinta, porque o mercado não é bom desde que deixou de chover. Um homem pega num pão redondo, corta-o em quatro partes e oferece uma delas a Rachid, que hesita. O pai estende a mão, pega no pão e agradece ao homem. — Nunca deves recusar um pedaço de pão ou um copo de água que te ofereçam. É uma tradição nossa. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Um passageiro põe um aparelho de rádio no máximo, para ouvir um relato de futebol. Fuma cigarro atrás de cigarro. Ninguém ousa dizer-lhe nada. Um homem diz ao pai de Rachid: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não ligues; é destrambelhado. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Quando chegam ao sopé da montanha, já Rachid dorme nos braços do pai. O avô espera-os, com um candeeiro a gás na mão. A noite está escura e sopra um vento ligeiro. Quando abre os olhos, Rachid aninha-se contra o avô, Jeddi. A casa tem um pátio quadrado descoberto. As paredes são feitas de adobe, uma mistura de terra batida, palha e hulha. Em frente à entrada, fica o estábulo onde dormem as vacas. Rachid passeia no pátio, espantado com o que vê. É a primeira vez que vê a casa do avô. Costumava ver Jeddi em Marraquexe, em casa do tio que tem uma loja de frutos secos, mesmo à entrada da medina. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid não tem sono. Levanta a cabeça e conta as estrelas. Fica com vertigens. Resiste ao sono, apesar da fadiga e do esforço da mudança. Quer passar a primeira noite a contemplar o céu. À meia-noite, fecha os olhos e adormece, com a cabeça pousada nos joelhos de Jeddi. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">No dia seguinte, o pai vai-se embora e deixa Rachid a brincar com os cães, os gatos, os coelhos e o burro. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Vou tratar de problemas com o teu tio em Marraquexe. Venho buscar-te dentro de dez dias. Porta-te bem e ouve o teu avô.</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não te preocupes, papá. Aqui não há televisão. Espero que ele me conte histórias. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">À tarde, quando os animais se recolheram, Jeddi pega na mão de Rachid e leva-o para debaixo de uma grande árvore. Na realidade, a árvore é pequena. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Dizemos que é grande, não pelo tamanho, mas pela idade e pela calma que nos incute — explica Jeddi. — É uma argânia. Dá um fruto semelhante às azeitonas pretas. As cabras comem-no, mas rejeitam os caroços. Estes são apanhados e postos a secar ao sol durante toda uma estação. Quando os esmagamos com a mó, dão um líquido negro, que, uma vez purificado, se transforma em azeite. Um azeite suculento e raro: o azeite de argânia. É melhor que o azeite da oliveira. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não gosto de azeite. Em França, usamos manteiga. Faz-se publicidade a um azeite leve, que não faz engordar. Na televisão, aconselham-nos a comer manteiga. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid aprende a fazer pão com a avó. Assiste a toda a operação: chega mesmo a ver os pães a sair do forno, que está situado no meio do pátio. Depois, vai dar um passeio com o avô até à aldeia. Caminham por estradas cheias de pó. A praça da aldeia assemelha-se a uma cerca onde se guardam os animais. Há duas lojas que vendem de tudo: Coca-Cola, pastilha elástica, detergente, óleo de amendoim, pregos, foices, lâminas de barbear, candeeiros a petróleo ou a gás, ovos, farinha, aspirinas, cordas, enxadas, apanhadores, rodas de tractor, bidões de plástico, pão, cadernos de escola e até mesmo um pequeno televisor japonês a pilhas! </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Jeddi pára diante da loja, que também vende café, e senta-se numa caixa. Rachid bebe uma Fanta com sofreguidão. As pessoas vêm cumprimentar Jeddi e beijar Rachid, a quem oferecem presentes: bombons, bebidas, dinheiro, um chapéu de palha, uma túnica de lã, favas grelhadas, azeitonas, tâmaras e figos secos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Todos se conhecem e todos falam da mesma coisa: da falta de chuva. Estão persuadidos de que a chegada de Rachid lhes trará boa sorte e fará vir a chuva há tanto esperada. Diz um homem: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Este menino veio anunciar-nos a chuva; vê-se pela cara dele; está calado, mas tudo indica que é portador de boas notícias. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">No caminho de regresso a casa, Rachid farta-se de fazer perguntas ao avô. Reparou que a água é escassa, que não há água nas torneiras. É preciso ir buscá-la aos poços, filtrá-la e fervê-la antes de a beber. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Pelo caminho, repara que há mais mulheres do que homens a trabalhar nos campos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Esta noite, vou falar-te das estrelas — diz-lhe Jeddi. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid adormece depois do almoço e tem um sonho muito bonito: vê a mãe, que está vestida como as mulheres dos campos. Dança e canta à chuva. Os homens misturam-se com as mulheres e dançam também para agradecer ao céu ter-lhes dado chuva e esperança. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Quando acorda, o céu está cheio de nuvens negras e todos esperam pela tempestade. Começam, então, a cair chuvas diluvianas sobre a região. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">À noite, os vizinhos vêm ver o menino que lhes trouxe sorte. Colocam uma mão sobre a sua cabeça e aproximam os lábios para a beijar. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Nessa noite, Rachid tem vontade de estar em casa, com os pais e a irmã. Pensa na televisão, mas sente que já não lhe faz muita falta. Não percebe o que se está a passar com ele. Desfilam imagens pela sua cabeça. Imagens de séries e de filmes que costumava ver em França. Essas imagens misturam-se com as da aldeia. Lutam umas com as outras e Rachid faz de árbitro. Torce pelas imagens da aldeia: não são mais belas, mas são mais misteriosas.</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">No dia seguinte, depois do jantar, Jeddi pega na mão de Rachid e sentam-se num velho tapete, à entrada de casa. Diz ao neto: </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Ergue os olhos para o céu. Contempla-o sem pressa. Habitua o teu olhar à obscuridade. Vê a Lua em quarto crescente. Diz a ti mesmo que todos somos filhos do céu. Alguém disse que as nossas raízes estão nas estrelas. Isso significa que todos somos filhos e filhas do universo. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Vejo muitas estrelas… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Só podes vê-las bem, depois de os teus olhos se terem habituado à obscuridade. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O que é uma estrela? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— É uma imensa bola de luz. A estrela que está mais próxima de nós, e que é também a mais conhecida, é o Sol. Ilumina o mundo e fornece-lhe calor. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— É o senhor do universo… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— É o nosso mestre e amigo. Mas gosta de nós de longe. Se se aproximar demasiado de nós, os seus raios queimam-nos. Impede as nuvens de se formarem e a terra fica sem água. Uma terra sem água é uma infelicidade para todos nós. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— É a seca… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Na nossa região, a seca é sinónimo de infelicidade. De cada vez que ela surge, os camponeses abandonam as terras e vão mendigar para a cidade. Quem tiver água está salvo. É por isso que ter água é mais importante do que ter terra. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— E a Terra? Para onde vai a Terra? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— A Terra não é uma estrela, mas sim um planeta. Gira sem cessar à volta do Sol. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O que procura a Terra? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Faz o que fazem os outros planetas. Sabes, não somos os únicos a girar em torno do Sol. Ao todo, há sete planetas: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Platão e a Terra. A Terra dá-nos o dia e a noite. A noite traz-nos os sonhos e os sonhos ajudam-nos a viver. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Jeddi, como sabes tudo isso? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Quando tinha a tua idade, era pastor. Levantava-me antes do sol raiar e levava as vacas a pastar longe da aldeia. Tinha doze vacas à minha guarda. Só tinha por companhia um cão, Messaoud. Ia à procura de erva para os meus animais. Tal como os meus antepassados, contemplava o céu, para saber o que se ia passar na terra: se ia chover, se os ventos iam empurrar as nuvens na direcção certa. Habituei-me a consultar o céu para tudo. O meu pai dizia que cada ser humano tem uma estrela no céu. À noite, isolava-me e perscrutava o céu, em busca da minha estrela. À força de tanto o observar, aprendi bastantes coisas e o meu pai explicava-me outras. Conhecia o nome de muitas estrelas. Dizia-me que, para nós, Árabes, a Ursa Maior é como uma caravana no horizonte. Se a seguirmos, ela conduzir-nos-á à nossa estrela. Então, eu caminhava pelo céu durante horas, montado na Via Láctea, à procura da minha estrela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Como é a tua estrela? Como se chama? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Dei-lhe o nome da minha primeira filha, Nejma, que morreu muito jovem. Sei que ela foi ter com a minha estrela. Instalou-se na sua luz e ficou coberta da sua pureza e da sua beleza. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Podes mostrar-ma? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Gostaria muito, mas os meus olhos já não vêem muito bem, e tenho dificuldade em distinguir os astros no céu. Mas tu podes encontrá-la quando fores à procura da tua própria estrela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Em Paris, o céu está sempre encoberto. O que hei-de fazer para encontrar a minha estrela? Como a reconhecerei? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Reconhecê-la-ás sem esforço. Sentirás, com convicção, que se trata dela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Tenho de vir viver para a aldeia… </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não forçosamente. Vens ver-me sempre que estejas em férias. No Verão, por exemplo…</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Este Verão, em França, vão passar um filme que todos os miúdos americanos já viram. Chama-se <em>A nova guerra das estrelas</em>. O herói chama-se Jeddi, como tu!</span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— É avô, como eu? </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Não, não é casado! </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Contas-me depois? Gostava que me contasses o que vês na televisão. De vez em quando, vamos à aldeia ver filmes egípcios. Sempre é uma mudança. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Rachid adormece nos joelhos do avô. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">No dia seguinte, acompanha-o ao mercado. Partem numa mula. Há camponeses de terras vizinhas a venderem os seus produtos. Jeddi não vende nada, só mostra o mercado ao neto. As pessoas cumprimentam-no. Também há contadores de histórias, acrobatas, mágicos. Um homem vende flocos que custam muito dinheiro. É muito alto e está vestido de Super-Homem. Diz que a mãe o alimentou com estes flocos e que, por isso, se tornou um Super-Homem. Está calor e o homem transpira muito. As pessoas riem-se. Algumas compram os flocos e comem-nos mesmo ali. Mas logo mudam de cor e cospem fora o que comeram. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Todas as noites, avô e neto se sentam no mesmo tapete e observam o céu. Rachid está impaciente porque não consegue encontrar a sua estrela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— Há milhares de estrelas. É impossível vê-las todas, mesmo com o auxílio de aparelhos. Sê paciente e passeia pelo rio celeste. Quando a tua estrela te vir, vem ter contigo e apresenta-se. Pode acontecer hoje, amanhã ou no próximo ano. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Nesse momento, uma cauda luminosa atravessou o céu a toda a velocidade. Rachid exclamou: — É ela! Corre como eu! </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">— O que viste é uma estrela cadente. Provém de poalha celeste. Está a fugir de alguma coisa, talvez do Sol. Não é a tua estrela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Todas as noites, Rachid pensa ter visto a sua estrela. Quando o pai o vem buscar para voltarem para França, encontra o filho triste e insatisfeito. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Jeddi abraça o neto com força: — No Verão, o céu está mais limpo e as estrelas vêem-se com mais facilidade. Vais ter mais sorte. Estarei à tua espera. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Na viagem de regresso, Rachid conta ao pai tudo o que aprendeu. Na escola, oferece à professora uma pulseira de prata que a avó lhe deu. Só fala de Jeddi, das estrelas, dos planetas e de Marrocos. Em casa, diante da televisão, está distraído. Não que já não queira ver, mas sabe agora que há outras maravilhas, outras imagens. Basta levantar os olhos para o céu e interrogar as estrelas. Numa noite de Verão, sentado num tapete junto de Jeddi, acaba por encontrar a sua estrela. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">As imagens do ecrã têm menos mistério do que uma pequena árvore chamada argânia, ou do que um mercado árabe cheio de camponeses, animais e Super-Homens falsos. </span></p>
<p style="line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 4.8pt;"><span style="font-size:9.5pt;color:#003366;line-height:140%;font-family:Verdana;">Mas Danièle continua a ter olhos azuis. </span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:9pt;color:#003366;font-family:Verdana;">Tahar Ben Jelloun/Baudoin</span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><em><span style="font-size:9pt;color:#003366;font-family:Verdana;">Rachid, l'enfant de la télé</span> </em></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:9pt;color:#003366;font-family:Verdana;">Paris, Éditions du Seuil, 1995<br />
Texto Adaptado</span></p>
<p></span></p>
<p>De <a href="http://verticalizar.wordpress.com/">Verticalizar</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[À beira do lume]]></title>
<link>http://dialogodegeracoes.wordpress.com/2007/07/28/a-beira-do-lume-2/</link>
<pubDate>Sat, 28 Jul 2007 13:34:16 +0000</pubDate>
<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
<guid>http://dialogodegeracoes.pt-br.wordpress.com/2007/07/28/a-beira-do-lume-2/</guid>
<description><![CDATA[

Sossegadas as balbúrdias do dia, já a noite vinha devagarinho deitar pozinhos de sono por aqui e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="center" style="text-align:center;margin:0;"><em><span style="font-size:22pt;color:#660033;font-family:FlamencoD;"></span></em></p>
<p style="text-align:justify;margin:0;"><span style="color:#660033;"></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">Sossegadas as balbúrdias do dia, já a noite vinha devagarinho deitar pozinhos de sono por aqui e por ali. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">Sentadas à lareira da velha casa, a avó e a neta começaram a pensar qual havia de ser a última história do dia. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Conte lá a história da Carochinha! — pediu a Mariana. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">A avó admirou-se: </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Outra vez?! Mas tu nunca me deixas acabar como deve ser... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Hoje deixo! — prometeu a menina. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><!-- D(["mb","\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;E a avó contou a história da Carochinha, como ela é conhecida. Falou da Carochinha à janela, toda contente por ter encontrado uma moeda ao varrer sua casinha:\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Quem quer casar com a Carochinha, que é formosa e bonitinha?\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— &#34;Quero eu, quero eu!&#34; — tinham dito um cão, um gato, um galo, um boi, um burro...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;Mas a Carochinha não tinha gostado da voz de nenhum deles e todos se tinham ido embora. Até que apareceu um ratinho: &#34;Quero eu, quero eu!&#34;\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Oh, como és engraçado! Ora fala um bocadinho, para eu ouvir bem a tua voz!\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Chi... Chi... Chi...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Que linda fala! Vamos já casar! Vamos já casar!\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;E assim foi. No dia da boda, já iam a caminho da igreja para o casório, quando a Carochinha deu por falta de uma luva que tinha esquecido na cozinha, ao mexer o panelão que fervia ao lume.\n",1] );  //--><font face="Times New Roman">E a avó contou a história da Carochinha, como ela é conhecida. Falou da Carochinha à janela, toda contente por ter encontrado uma moeda ao varrer sua casinha: </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Quem quer casar com a Carochinha, que é formosa e bonitinha? </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— "Quero eu, quero eu!" — tinham dito um cão, um gato, um galo, um boi, um burro... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">Mas a Carochinha não tinha gostado da voz de nenhum deles e todos se tinham ido embora. Até que apareceu um ratinho: "Quero eu, quero eu!" </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Oh, como és engraçado! Ora fala um bocadinho, para eu ouvir bem a tua voz! </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Chi... Chi... Chi... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Que linda fala! Vamos já casar! Vamos já casar! </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">E assim foi. No dia da boda, já iam a caminho da igreja para o casório, quando a Carochinha deu por falta de uma luva que tinha esquecido na cozinha, ao mexer o panelão que fervia ao lume. <!-- D(["mb","\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Vou já buscar a luva! — disse o ratinho, muito amável.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Tem cuidado, não te debruces no caldeirão!!! — avisou a noiva.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Bem — continuou a avó — o ratinho foi até à cozinha e...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;A neta, que ouvia a história com muita atenção, disse de repente: — Mas a porta estava fechada!!!\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;A avó continuou:\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Pronto, a porta estava fechada e então o ratinho foi logo a ver da chave...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Mas não a encontrou!!! — disse muito depressa a Mariana.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Bem — continuou a avó — o ratinho então subiu a um postigo de grades que dava para a cozinha, e...\n",1] );  //--></font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Vou já buscar a luva! — disse o ratinho, muito amável. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Tem cuidado, não te debruces no caldeirão!!! — avisou a noiva. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Bem — continuou a avó — o ratinho foi até à cozinha e... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">A neta, que ouvia a história com muita atenção, disse de repente: — Mas a porta estava fechada!!! </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">A avó continuou: </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Pronto, a porta estava fechada e então o ratinho foi logo a ver da chave... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Mas não a encontrou!!! — disse muito depressa a Mariana. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Bem — continuou a avó — o ratinho então subiu a um postigo de grades que dava para a cozinha, e... <!-- D(["mb","\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Viu que não cabia por entre as grades!!! — acudiu muito aflita a Mariana.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;A avó não desistiu:\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Bem, então o ratinho, que era muito esperto e queria ir buscar lá dentro da cozinha a luva da Carochinha, pôs-se à procura de um buraco na porta pelo qual entrasse...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Mas não encontrou!!! A porta era nova! — interrompeu a Mariana\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Bem, então não pôde ir buscar a luva da Carochinha à cozinha e voltou muito triste para junto da sua noiva, que...\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Ó avó, escusa de dizer agora que ela lhe deu a chave da cozinha, porque eu sei que não deu nada!!! — quase gritou a neta.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;— Por acaso era isso mesmo que eu ia dizer... — riu a avó.\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;",1] );  //--></font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Viu que não cabia por entre as grades!!! — acudiu muito aflita a Mariana. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">A avó não desistiu: </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Bem, então o ratinho, que era muito esperto e queria ir buscar lá dentro da cozinha a luva da Carochinha, pôs-se à procura de um buraco na porta pelo qual entrasse... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Mas não encontrou!!! A porta era nova! — interrompeu a Mariana </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Bem, então não pôde ir buscar a luva da Carochinha à cozinha e voltou muito triste para junto da sua noiva, que... </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Ó avó, escusa de dizer agora que ela lhe deu a chave da cozinha, porque eu sei que não deu nada!!! — quase gritou a neta. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">— Por acaso era isso mesmo que eu ia dizer... — riu a avó. </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><!-- D(["mb","\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;E as duas, avó e neta, ali ficaram a rir e a brincar à beira do lume e à beira de uma velha história da Carochinha que a neta não queria, por nada deste mundo, que acabasse…\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt; \u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\n\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;line-height:140%;text-align:center\" align\u003d\"center\"\&#38;gt;\u003ci\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;\ncom o João Ratão\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/i\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;line-height:140%;text-align:center\" align\u003d\"center\"\&#38;gt;\u003ci\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;\ncozido e assado\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/i\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;line-height:140%;text-align:center\" align\u003d\"center\"\&#38;gt;\u003ci\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;\ndentro do caldeirão!\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/i\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 2pt;text-indent:22.7pt;line-height:150%;text-align:justify\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:11pt;color:#660033;line-height:150%\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt; \u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:right\" align\u003d\"right\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt;color:#660033\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;Maria Alberta Menéres\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:right\" align\u003d\"right\"\&#38;gt;\u003ci\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt;color:#660033\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;Histórias de tempo vai tempo vem\n\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/i\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt;text-align:right\" align\u003d\"right\"\&#38;gt;\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt;color:#660033\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt;Porto, Edições Asa, 1988\u003c/font\&#38;gt;\u003c/span\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0pt\"\&#38;gt;\u003cfont face\u003d\"Times New Roman\"\&#38;gt; \u003c/font\&#38;gt;\u003c/p\&#38;gt;\n",0] );  //--><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">E as duas, avó e neta, ali ficaram a rir e a brincar à beira do lume e à beira de uma velha história da Carochinha que a neta não queria, por nada deste mundo, que acabasse… </font></span></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:140%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"></span></p>
<p align="center" style="line-height:140%;text-align:center;margin:0 0 2pt;"><em><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">com o João Ratão</font></span></em></p>
<p align="center" style="line-height:140%;text-align:center;margin:0 0 2pt;"><em><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">cozido e assado</font></span></em></p>
<p align="center" style="line-height:140%;text-align:center;margin:0 0 2pt;"><em><span style="font-size:11.5pt;color:#660033;line-height:140%;"><font face="Times New Roman">dentro do caldeirão!</font></span></em></p>
<p style="text-indent:22.7pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 2pt;"><span style="font-size:11pt;color:#660033;line-height:150%;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:10pt;color:#660033;"><font face="Times New Roman">Maria Alberta Menéres</font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><em><span style="font-size:10pt;color:#660033;"><font face="Times New Roman">Histórias de tempo vai tempo vem </font></span></em></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:10pt;color:#660033;"><font face="Times New Roman">Porto, Edições Asa, 1988</font></span></p>
<p style="margin:0;">&#160;</p>
<p><!-- D(["ce"]);  //--></p>
<p>De <a href="http://verticalizar.wordpress.com/">Educar com Histórias</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Escuta as vozes da terra]]></title>
<link>http://dialogodegeracoes.wordpress.com/2007/07/28/escuta-as-vozes-da-terra/</link>
<pubDate>Sat, 28 Jul 2007 12:40:56 +0000</pubDate>
<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
<guid>http://dialogodegeracoes.pt-br.wordpress.com/2007/07/28/escuta-as-vozes-da-terra/</guid>
<description><![CDATA[

Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="center" style="text-indent:21.3pt;line-height:120%;text-align:center;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:14pt;color:#003300;line-height:120%;"></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:120%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11pt;color:#003300;line-height:120%;"></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, fazia‑lhe imensas perguntas. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, por que…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― O que se passaria se…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Será que às vezes…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Um dia, perguntei-lhe: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, o que é uma oração? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Pus-me à escuta, atento, mas em vão. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, os ribeiros também murmuram? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na beleza do mundo… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">O meu avô sorriu e passou a mão pelos meus cabelos. Respondeu: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Podemos passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o nosso próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de nos exprimirmos, de falarmos… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Passado algum tempo, o meu avô disse-me que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Há respostas para as nossas orações? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Sorriu.</font> </span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio, e sentia-me muito só. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.25pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente: </font></span></p>
<p style="text-indent:18pt;line-height:150%;margin:0;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô! </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Foi então que algo aconteceu. Senti – outra vez – o meu avô perto de mim… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito. </font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Douglas Wood</font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><em><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Escuta as vozes da terra</font> </span></em></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Paris, Gründ, 2000</font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><font face="Times New Roman"><span style="font-size:8pt;color:#003300;">Tradução e adaptação</span><span style="color:#003300;"></span></font></p>
<p>De <a href="http://verticalizar.wordpress.com/">Verticalizar</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Escuta as vozes da terra ]]></title>
<link>http://geracoesedialogo.wordpress.com/2007/07/28/escuta-as-vozes-da-terra/</link>
<pubDate>Sat, 28 Jul 2007 12:40:56 +0000</pubDate>
<dc:creator>div. temas</dc:creator>
<guid>http://geracoesedialogo.pt-br.wordpress.com/2007/07/28/escuta-as-vozes-da-terra/</guid>
<description><![CDATA[

Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="center" style="text-indent:21.3pt;line-height:120%;text-align:center;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:14pt;color:#003300;line-height:120%;"></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:120%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11pt;color:#003300;line-height:120%;"></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, fazia‑lhe imensas perguntas. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, por que…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― O que se passaria se…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Será que às vezes…? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Um dia, perguntei-lhe: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, o que é uma oração? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Pus-me à escuta, atento, mas em vão. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Avô, os ribeiros também murmuram? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na beleza do mundo… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">O meu avô sorriu e passou a mão pelos meus cabelos. Respondeu: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Podemos passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o nosso próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de nos exprimirmos, de falarmos… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Passado algum tempo, o meu avô disse-me que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta: </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Há respostas para as nossas orações? </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Sorriu.</font> </span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio, e sentia-me muito só. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água. </font></span></p>
<p style="text-indent:21.25pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente: </font></span></p>
<p style="text-indent:18pt;line-height:150%;margin:0;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô! </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0 0 3pt;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">Foi então que algo aconteceu. Senti – outra vez – o meu avô perto de mim… </font></span></p>
<p style="text-indent:21.3pt;line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:11.5pt;color:#003300;line-height:150%;"><font face="Times New Roman">E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito. </font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Douglas Wood</font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><em><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Escuta as vozes da terra</font> </span></em></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><span style="font-size:8pt;color:#003300;"><font face="Times New Roman">Paris, Gründ, 2000</font></span></p>
<p align="right" style="text-align:right;margin:0;"><font face="Times New Roman"><span style="font-size:8pt;color:#003300;">Tradução e adaptação</span><span style="color:#003300;"></span></font></p>
<p>De <a href="http://verticalizar.wordpress.com/">Verticalizar</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O pão de tâmaras e nozes]]></title>
<link>http://dialogodegeracoes.wordpress.com/2007/07/27/o-pao-de-tamaras-e-nozes/</link>
<pubDate>Fri, 27 Jul 2007 21:15:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
<guid>http://dialogodegeracoes.pt-br.wordpress.com/2007/07/27/o-pao-de-tamaras-e-nozes/</guid>
<description><![CDATA[Sebastião está sentado ao colo do pai a brincar ao “Quanto é que gostas de mim?”
— Quanto, ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Sebastião está sentado ao colo do pai a brincar ao “Quanto é que gostas de mim?”</p>
<p align="justify">— Quanto, pai?</p>
<p align="justify">— Assim! — e o pai aperta Sebastião com força contra si.</p>
<p align="justify">— E da Joana?</p>
<p align="justify">— Assim! — outro apertão forte.</p>
<p align="justify">— E da mãe?</p>
<p align="justify">— Assim!</p>
<p align="justify">— E de nós todos juntos?</p>
<p align="justify">— Assim, assim, assim!</p>
<p align="justify">Sebastião solta gritinhos de alegria porque o pai o aperta com muito força, e diz em seguida:</p>
<p align="justify">— E a mãe gosta tanto de ti como do pão de cada dia.</p>
<p align="justify">— Como?</p>
<p align="justify">— Foi ela que disse. Ou qualquer coisa parecida. Gosta assim de ti porque tu estás sempre presente para nós como o pão de cada dia.</p>
<p align="justify">— Também não está mal dito — responde o pai.</p>
<p align="justify">Sebastião pensa por uns momentos.</p>
<p align="justify">— Porque é que não disse ‘bolo’?</p>
<p align="justify">— Porque não se come bolo todos os dias. Pão, sim. Precisamos de pão para viver – e o pai bate com a mão na testa. — Pão! Não queríamos cozer um pão especial para pôr no cesto da Páscoa?</p>
<p align="justify">— Sim! No forno do avô!</p>
<p align="justify">Quando o pai era novo, viveu na quinta Hinteregg. Já mora no vale há muito tempo mas a pequena quinta com as macieiras e o forno antigo ainda lhe pertence. De cada vez que é preciso cozer pão, Sebastião e os pais vão a Hinteregg.</p>
<p align="justify">— Pai, faz um pão como o que Jesus comeu no tempo dele.</p>
<p align="justify">— Estás a falar da última ceia? Nessa altura comeu pão matzo, segundo a tradição judaica. Era um pão ázimo, seco e fino feito sem fermento. Estás a falar de um desses pães?</p>
<p align="justify">Sebastião franze a testa.</p>
<p align="justify">— Não. Gostava de algo mais substancial. No Domingo, vou perguntar outra vez à Lena, logo depois da missa.</p>
<p align="justify">A catequista tem um livro de receitas do tempo de Jesus.</p>
<p align="justify">— O teu pai tem razão — diz a Sebastião. — Durante os feriados de Pesach, os judeus não comiam nada feito de massa levedada. Faziam bolos de especiarias com farinha de matzo e ovos. Mas para outros dias de festa tinham pães levedados. Olha, aqui está: pão de passas, trança de sésamo, pão de figos, pão de nozes e tâmaras…</p>
<p align="justify">— Pão de nozes e tâmaras soa bem — diz Sebastião.</p>
<p align="justify">— Eu vou copiar-te a receita — diz Lena. — Achas que o teu pai podia levar o grupo da comunhão? Cozer pão em Hinteregg seria uma óptima aula de grupo!</p>
<p align="justify">O pai estuda a receita e suspira.</p>
<p align="justify">— Com fermento natural? Mas vai demorar dias!</p>
<p align="justify">— Não faz mal — diz Sebastião. — Ainda há tempo. Posso dizer aos meninos que vamos cozer pão na Quinta-Feira Santa?</p>
<p align="justify">O pai suspira outra vez.</p>
<p align="justify">— Está bem. Vou então tirar livre a Quinta-Feira Santa. E agora vou mostrar-te como se faz levedura natural.</p>
<p align="justify">Numa bacia de barro mistura, com uma colher de pau, farinha integral com água morna. Depois coloca a massa lá fora, no terraço soalheiro.</p>
<p align="justify">— A mistura precisa de ar para poder fermentar. No ar há microrganismos tão minúsculos que só se podem ver ao microscópio. Os fermentos penetram na massa e modificam-na com os seus gases até ficar pegajosa e com bolhas.</p>
<p align="justify">À noite, Sebastião traz a terrina para a sala para a massa ficar ao calor. No terceiro dia começam a aparecer as primeiras bolhas. A massa também já tem outro cheiro.</p>
<p align="justify">— Isto está a ficar bom?</p>
<p align="justify">— Sim. Cheira a fermentado. É neste começo de fermento que misturamos agora farinha e água para fazer o fermento final.</p>
<p align="justify">Na manhã de Quinta-Feira Santa, Sebastião espantou-se. O fermento tinha duplicado de tamanho! O pai deita um pedaço numa chávena que guarda no frigorífico.</p>
<p align="justify">— É para a próxima vez que cozermos pão. Agora vamos fazer a massa para o teu pão de nozes e tâmaras. Para isso vamos precisar do maior alguidar que houver cá em casa!</p>
<p align="justify">O pai volta a misturar farinha e água morna, depois mel e uma chávena pequena de azeite, tâmaras e nozes secas picadas finas. Amassa com força e cobre a massa com um pano da cozinha.</p>
<p align="justify">A mãe abana a cabeça:</p>
<p align="justify">— Antigamente cozer pão era tarefa de mulheres, não era? E bem morosa!</p>
<p align="justify">A mãe enche um cesto com a merenda para Hinteregg, porque até mesmo o aquecer do forno e o cozer demoram horas. Sebastião e o pai levam para o carro o recipiente com a massa. Vão buscar as crianças à paragem do autocarro e depois sobem a montanha.</p>
<p align="justify">Na antiga cozinha de Hinteregg cada criança dá forma ao seu pão. São depois cobertos com panos e colocados ao sol. Agora têm de “crescer” pelo menos durante duas horas. Sobra-lhes muito tempo para merendar e brincar. Mas todos querem ajudar a acender o forno.</p>
<p align="justify">O antigo forno está ao ar livre na orla do pomar. Tem espaço para nove pães. O pai de Sebastião empilha os cavacos de madeira segundo uma forma que aprendera em pequeno com a avó. Espera até a madeira ter ardido e ficar reduzida a brasas. As crianças mergulham ramos de pinheiro num balde de água. O pai varre as brasas para o lado e varre o chão com os ramos húmidos. Agora é tão emocionante!</p>
<p align="justify">Cada criança faz uns riscos por cima do pão com uma faca. De seguida os pães vão ao forno. O pai mete-os lá dentro com uma pá de cabo comprido e fecha a porta.</p>
<p align="justify">— Agora já ganhaste uma cerveja — diz Sebastião.</p>
<p align="justify">— E um pão de queijo — diz Susana.</p>
<p align="justify">É bom sentar-se ao lado do forno quente e sentir o vento de Primavera na cara. É agradável imaginar como Maria terá cozido pão para o seu pequeno Jesus e para José, há dois mil anos. As tâmaras, comprara-as a um vendedor.</p>
<p align="justify">— Mercadoria de Jericó de primeira categoria! — teria garantido o vendedor.</p>
<p align="justify">Terá Jesus ajudado a fazer a massa? Ter-se-á ajoelhado, impaciente, diante do pequeno forno de barro bojudo? Ou só provou o pão de tâmaras e nozes mais tarde, aquando da sua primeira peregrinação a Jerusalém, com doze anos?</p>
<p align="justify">— Esperai aqui à sombra — pode ter dito José. — Aquele padeiro ali vende pão de tâmaras e nozes segundo uma antiga receita de Jericó. – E meteu-se na confusão da multidão para comprar esta saborosa especialidade para os seus dois entes queridos. Com um pouco de queijo fresco com ervas, uma mão-cheia de azeitonas e um copo de chá de menta, o pão era uma refeição completa.</p>
<p align="justify">Passada uma hora, o pai tira o pão de tâmaras e nozes do forno. Como cheira bem! Sebastião tem água na boca.</p>
<p align="justify">— Mas a Lena disse que só daqui a dois dias é que sabe mesmo bem!</p>
<p align="justify">— Mesmo a tempo para o cesto da Páscoa / Em certos países, é tradição, na Quinta-Feira Santa, levar a benzer à igreja um cesto com a comida do dia de Páscoa) ! — diz o pai.</p>
<p align="justify">Sebastião assente com a cabeça. É tarefa sua fazer e enfeitar o cesto da Páscoa para ser benzido na igreja. Sebastião já se sente contente. Vai pôr lá dentro pão e sal, manteiga e cerovias, ovos pintados e carne, e tapa tudo com a toalha bordada a ponto de cruz vermelho. Na asa prende dois narcisos.</p>
<p align="justify">Será que a sua amiga Ana, na cidade, também vai benzer o cesto? Esta noite ainda há-de telefonar-lhe.</p>
<p>Lene Mayer-Skumanz<br />
<em>Anna und Sebastian</em><br />
Wien, Herder Verlag, 2003</p>
<p>Tradução e adaptação</p>
]]></content:encoded>
</item>

</channel>
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