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	<title>subliteratura &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/subliteratura/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "subliteratura"</description>
	<pubDate>Tue, 07 Oct 2008 19:01:20 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

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<title><![CDATA[A quem pretendo assistir na Bienal]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=377</link>
<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 13:00:57 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[
Listinha só pra mim, para não esquecer. Programação completa aqui.
17/08, domingo, 11h - Néli]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><strong></strong></p>
<p>Listinha só pra mim, para não esquecer. Programação completa <a href="http://www.bienaldolivrosp.com.br" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>17/08, domingo, 11h - Nélida Piñon </p>
<p><strong>23/08, sábado, 15h - Lygia!!!</strong></p>
<p>23/08, 19h - Rubem Alves e Gilberto Dimenstein (blergh), mas o tema parece legal.</p>
<p>***</p>
<p>No site, achei uma frase muito boa da Ana Maria Machado: "Escrevo o tempo todo, não só quando estou diante do papel ou do computador - esse é só o momento final, em que as palavras saem de mim e tomam forma exterior".</p>
]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=297</link>
<pubDate>Thu, 31 Jul 2008 00:33:45 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[O locutor de voz grossa acaba de avisar onde ficam as saídas de emergência e pede para que todos d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>O locutor de voz grossa acaba de avisar onde ficam as saídas de emergência e pede para que todos desliguem seus celulares. As luzes se apagam. Detrás da cortina, espio o escurecer: primeiramente, o ambiente ainda guarda um resquício de amarelo e o escuro tem algo de amarronzado. Logo depois, vem o quase-breu. Sim, quase, porque os olhos dos espectadores são como vagalumes acesos na noite. E estão atentos, faceiros, como um bicho que se esconde entre as folhagens por horas a fio, esperando o momento certo de atacar a presa. Pois hoje a presa sou eu. Quem mais?</p>
<p>Sinto um empurrão nas costas. Não é forte o suficiente para me atirar no palco, mas é enérgico, para que eu não amarele. Tenho essa mania de perder a coragem nos momentos mais cruciais. Os joelhos arquejam, o ar foge dos pulmões e o coração fica fraco-fraco, pequenino como coraçãozinho de criança. Boto a mão no peito e o sinto batendo bem longe, como se tivesse se enterrado mais profundamente nas carnes por pura vergonha. Viro para trás e a pessoa já se foi: fico sem saber de quem eram as mãos. Ele (ou ela) podia ter me desejado um merda, não é isto que os atores sempre dizem?, mas a palavra já é minha velha conhecida e nunca me significou sorte. Bem, com ou sem boa sorte, tenho de ir. Estou numa sinuca de bico, no beco sem saída, no abatedouro. Não tem mais volta. A única possibilidade é o passo à frente - que eu dou. Abrem-se as cortinas pesadas e vermelhas.</p>
<p>Vertigem. Os vagalumes todos parecem ainda mais vivos e brilhantes, fluorescentes. Pisco vinte vezes para focar os olhos, mas tudo se embaralha e tranço as pernas feito bêbado. Alguém ensaia uma risada: "será comédia?". Pois é, nenhum deles sabe o que será. Nem eu. Caí nessa desavisado e minha única arma é o improviso. Para isto, não há curso preparatório. Não há ensaio nem camarim nem exercícios vocais. Aqui é preto no branco, meu filho, porque só se vive uma vez.</p>
<p>(continua... Acho).</p>
]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Guarulhos]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=294</link>
<pubDate>Wed, 30 Jul 2008 00:40:25 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[A despedida era só café-com-leite, não valia, não era a última. Disto ela tinha certeza (culpa ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>A despedida era só café-com-leite, não valia, não era a última. Disto ela tinha certeza (culpa dos filmes, livros e músicas que sempre pregam que o que é bom nunca aceita interrupções). Estava tão convicta que recusou-se até a dizer um "até breve". Sabia que o reencontraria em alguma trivialidade futura - supermercado, esquina, fila de banco, viagem inesperada. </p>
<p>Sedenta de futuro, esqueceu-se até de ver que ele tinha os olhos fixos nas ásperas curvas da realidade.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Desencanto]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=264</link>
<pubDate>Sat, 19 Jul 2008 21:25:47 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[
Eu o vi pela primeira vez quando o ônibus quebrou no meio daquele lugar sem nome, onde tudo era te]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div><strong></strong></div>
<p>Eu o vi pela primeira vez quando o ônibus quebrou no meio daquele lugar sem nome, onde tudo era terra batida, seca. Das casas de pau-a-pique, saíram as crianças descabeladas e desnutridas, sobressaltadas porque nenhum turista passava por ali. Ninguém nunca passava por ali. Se o esquecimento tomasse forma e rosto, seria exatamente como aquelas crianças de barriga grande, pele e cabelos queimados de sol. O motorista se esforçava para consertar logo a coisa – pelo celular (inacreditável, mas celulares pegavam ali), o gerente da agência de turismo já estava aos berros: dava pra ouvir de longe. Gritava que não podíamos ficar tanto tempo ali no meio do nada – para nós, paulistas, o Pernambuco não podia ser aquilo.</p>
<p>Depois o vi na sala de espera do consultório médico, quando senti um arrastar de chinelos atrás de mim. Espiei de rabo de olho mas não delimitei bem o rosto, só deu tempo de perceber os sulcos de cada lado da boca – coisa de quem já riu muito, mas o tempo tratou de punir a doçura. O chique-chique do chinelo soava como caminhar lento sobre folhas já mortas. Mesmo andando sobre concreto, a levantar nada além da poeira cinza-claro-quase-branco que sobe dos escapamentos direto para as janelas, ele não perdeu o jeito cabreiro de gente do mato: ele todo era um bicho selvagem, do tipo que não tem medo de fincar os olhos nas coisas. E os fincou em mim. Senti no cangote o feixe quente. O olhar alheio é sempre pesado e aparvalhado demais para não ser notado.</p>
<p>Então começaram a ficar mais freqüentes as suas aparições. Uns meses atrás, o encontrei no supermercado. Eu escolhia batatas-doces; ele, limões. Desta vez, fui eu quem finquei os olhos nele, para estudá-lo, entendê-lo, é como se o tivesse em uma lâmina de microscópio ou nadando em um tubo de ensaio: pensava-me diante de uma criatura exótica, o alheio em seu maior nível de alienação. Não sei se sentiu o calor do meu feixe – se sentiu, fingiu que não. Até eu mesma me incomodei com o som dos meus olhos percorrendo-o (enquanto o cabelo e as unhas de todos cresciam, os estômagos digeriam, os cérebros matutavam e a terra girava; enquanto envelhecíamos). Meu olhar era uma bomba-relógio, um universo prestes a nascer: era como o segundo anterior àquele em que o nada explodiu e nasceu o tudo, que começou a se expandir-expandir-expandir até o dia em que não der mais conta de si mesmo e explodirá novamente – desta vez, para morrer. Mas ele não se desesperou. Sequer esboçou movimento. Dirigiu-se ao caixa, pagou seus limões e saiu.</p>
<p>No dia seguinte, eu o vi dirigindo o carro que emparelhou com o meu no sinal vermelho. Quis lhe dizer algo, mas tinha os vidros fechados e usava óculos escuros. Quando o sinal abriu, ele disparou e logo dobrou a primeira esquina, enquanto os pedestres viravam as cabeças – não sei se por causa da velocidade ou pelo valor do veículo. Embasbacada, esqueci-me de arrancar também e os outros motoristas buzinaram em coro atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e o vi carregando os malabares de volta para a calçada. Tinha uma queimadura na mão, deu para ver bem. Depois, um susto!: era ele no meu banco de trás, sentado, com o rosto virado para o lado. Fitava a paisagem como se já não a percebesse: o olhar devia estar do avesso, com o jato fervente virado para o seu dentro. Como parecia entretido, eu não disse nada. A verdade é que, embora sentisse muita vontade de dizer-lhe algo, não sabia exatamente o quê. Não era uma pergunta, pois senti que em breve eu o saberia sem necessidade de perguntar nada; tampouco queria informar-lhe algo de mim porque tive a impressão de que a minha vida desaguaria nele. Ele parecia já ter vivido tudo o que seria possível contar e, provavelmente, caçoaria dos meus medos, os meus medos tão pequenos que é vergonhoso assumir que me rendo a eles. Algumas lápides são demasiadamente criativas, mas o único feito da maioria de nós é colecionar miudezas.</p>
<p>Cheguei em casa e ele assistia à televisão com os pés esticados no sofá. Assistia ou tentava assistir, porque passava os canais freneticamente. Às vezes fico pensando se não é esse o maior atrativo da tevê a cabo: a chance de escolher. Sempre que o vejo assim logo me lembro da multidão em polvorosa, a tentar derrubar o muro de Berlim com as próprias mãos – afinal, um buraquinho bastava para pular de vez para a terra da livre escolha. Fui direto para o banheiro e, sem nem tirar os olhos dos canais que dançavam ciranda, ele perguntou se eu não ia lhe dar um beijinho. Disse que não, estava cansada. E, então, era ele na pia ao lado, escovando os dentes junto comigo. E era dele o corpo me envolveu durante o sono, o braço pesado em volta da minha cintura. Eram dele os olhos bonitos mas remelentos que se abriram pouco depois dos meus, quando o sol já brilhava alto lá fora.</p>
<p>E agora o vejo também em mim. Todos os meus banhos agora são de esponja porque ele está grudado nos meus pêlos, está se arrastando pela minha pele. É uma gordura que o sabão não tira. E se impregnou até no meu passado, está nas minhas fotos de infância, nas memórias, está pintando tudo de preto. Assuo o nariz e lá está ele no papel higiênico. Lá está ele no meio do suor do gozo das fezes da urina das lágrimas da saliva do vômito! Lá está ele quando tusso. Lá está ele quando, em dias frios, dou uma baforada branca no ar. É o rosto dele, não o meu, o oposto que o espelho devolve. É a foto dele, não a minha, que está colada no meu RG. Eu devo ser um desmembramento dele, um braço amputado que ele sente ainda. Talvez todos sejamos. Ele deve ser como aqueles deuses hindus repletos de braços, mas alguns foram arrancados por algum inimigo e agora caminhamos por aí, perdidos, pedaços dele.</p>
<p>É dele a cara do vendedor do estrangeiro do pai do irmão do transeunte do vizinho, de todo mundo. Era ele o comissário de bordo que me serviu uísque no meio da turbulência, dizendo que ia ficar tudo bem. Era ele o pássaro que avistei de cima, no meio da vertigem, momento em que senti uma pureza tão adocicada que me desesperei de sede. E foi dele o sopro que fez meu sobressalto ficar fino-fino até sair do sangue. Foi ele quem me fez adormecer, esperando que tudo quanto sobrasse fizesse o mesmo. É ele o fantasma que vela meu sono e meus passos, o onipresente fantasma do Desencanto.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Sobre arte]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=235</link>
<pubDate>Wed, 09 Jul 2008 14:43:12 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Venho pensando em escrever esse texto já há algum tempo. Tenho certeza de que algumas pessoas não]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Venho pensando em escrever esse texto já há algum tempo. Tenho certeza de que algumas pessoas não vão concordar com ele... E até eu mesma posso mudar de idéia - afinal, isso não é vergonha nenhuma. Aliás, <a href="http://cataplum.estertores.com/2008/06/10/1876" target="_blank">é engraçado como as pessoas acham vergonhoso alguém que pensa diferentemente do modo como pensava antes</a>, já reparou? E, como já disse aqui antes, o câncer do mundo são as dicotomias: <em>ou você está do nosso lado ou está contra nós.</em> Eu, héin. Acho que mudar de opinião na maioria das vezes significa evolução, amadurecimento, flexibilidade. E se "ficar em cima do muro" significa ter uma visão distanciada e panorâmica das coisas ou simplesmente não emitir opinião por admitir que não sei o suficiente sobre o assunto, então prefiro ficar em cima do muro, thanks.</p>
<p>Enfim. Tenho pensado bastante sobre os rumos que a arte tomou hoje em dia. Gosto muito do Duchamp e dos dadaístas, mas, infelizmente, a vanguarda (aliás, as vanguardas) podem ter sido mal interpretadas. E essa má interpretação abriu espaço para o samba do crioulo doido artístico de hoje.</p>
<p>O ready-made de Duchamp era uma piada, uma afronta ao purismo e ao elitismo. "Ah, é? Então você acha que arte é aquilo que se põe em museu? Tá bom". Naquele contexto, a ação foi extremamente revolucionária e inteligente. Acredito que o grande objetivo dos dadaístas era abrir espaço para formas mais criativas e mais amplas de expressão artística.</p>
<p>Em vez disso, infelizmente, muita gente sem talento resolveu caminhar pela estrada já aberta. Duchamp queria denunciar o esvaziamento da arte, desconstruindo-a e propondo sua reconstrução (pelo menos é assim que eu enxergo sua obra... Corrijam-me se estiver falando alguma besteira). E, como a resposta para a pergunta "o que é arte?" ficou cada vez mais longe (se é que essa resposta existe), tem uma galera hoje fazendo qualquer coisa (qualquer coisa mesmo!) e chamando de arte, mesmo que não tenha nada (ou muito pouco) para dizer.</p>
<p><a href="http://br.reuters.com/article/entertainmentNews/idBRB37394720080630" target="_blank">Exemplo 1</a>.  <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1610200716.htm" target="_blank">Exemplo 2.</a></p>
<p>Nos anos 20, colocar uma roda de bicicleta dentro de uma galeria era transgressão, novidade, questionamento. Hoje, tantos anos depois,  colocar o coitado do velocista  para correr entre os visitantes da galeria significa o quê? Quer propor o quê? Quer transgredir o quê? Acho que voltamos ao esvaziamento que Duchamp criticava. Sem querer, Duchamp atirou no próprio pé - mas como ele poderia prever isso, não é verdade?</p>
<p>Aí, ninguém entende mais nada (até porque há pouco para efetivamente <em>entender)</em>, mas fica com vergonha de dizer que achou aquilo uma porcaria, por medo de não parecer <em>cool. </em> Se você diz que tal obra é uma porcaria, a galera <em>cool</em> te esnoba, diz que foi você quem não entendeu, bobinho. </p>
<p>É como a moda, por exemplo. Nego veste a mulher de abajur e bota um abacaxi sobre sua cabeça e, quando perguntado sobre o que o desfile significa, diz: "é a atitude transcendental pós-moderna da luz no interior do indivíduo do terceiro mundo", blábláblá. Enfim, o cara diz qualquer coisa, pois é fácil encher linguiça. Basta parecer convicto. Não é uma questão de conteúdo, é uma questão de atitude. É como diz o Guy Debord, em <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=85573&#38;sid=0155200578824531299540260&#38;k5=29A5B3A2&#38;uid=" target="_blank">"A sociedade do espetáculo": </a>não importa o que você é, mas o que parece. Sabe quando você não sabe responder àquela pergunta da prova, começa a enrolar e escreve mil linhas? A rigor, você não disse nada, mas o professor acaba te dando um pontinho. Então. Muitos artistas estão fazendo a mesma coisa. E, como tudo virou um grande mercado, você abre <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u413505.shtml" target="_blank">o jornal do dia seguinte e lê que tal cara é um gênio</a>.</p>
<p>(Nunca surgiram tantos gênios imediatos quanto agora. Afinal, é preciso vender AGORA. Não tem mais essa do cara morrer e, só aí, o povo ver que ele estava à frente de seu tempo. Não há mais tempo de digerir as coisas. Quando morrer, ele já terá sido esquecido há muito tempo, porque há montes de outros artistas nos quais prestar atenção). </p>
<p>Mas de onde vem tanta falta de criatividade? Será mesmo pura fanfarrice? Pura sacanagem? Talvez não.  Acho que é pressa. Talvez estejamos menos criativos, menos profundos e mais limitados porque temos pressa de fazer arte. Vivemos numa época em que tudo acontece muito rapidamente, mas a arte exige uma atitude mais reflexiva, mais contemplativa. Se você não dispende tempo para (tentar) entender a si mesmo e entender o mundo, é impossível expressar alguma coisa sem ser superficial, concorda? Somos bombardeados com fragmentos de informações e, se não tivermos calma para juntá-los, apenas cuspiremos fragmentos de volta. Tudo bobo e mal costurado.</p>
<p>Daí advém a "literatura-vômito". Você deve conhecer pelo menos um escritor contemporâneo que diz que "escreve para não vomitar", "escreve para não se matar", "escreve para não enlouquecer", etc etc. Realmente, escrever é terapêutico. Ajuda a relaxar. É só pegar um papel e começar a lamuriar-se. Se isso pode ser arte? Na maioria das vezes, não. Muita gente vai se identificar com você (afinal, todo mundo tem seus momentos de lamúria), mas é difícil aquilo ter algum valor estético. E é mais difícil ainda que aquilo diga alguma coisa além do que está escrito.</p>
<p>E a maioria dos adeptos da literatura-vômito quer ser transgressor, revoltadinho. <em>Woo hoo, sex, drugs &#38; rock and roll</em>. Mas, ei, repito: transgredir não é tão fácil. É preciso ter um bom questionamento para transgredir -novamente, é preciso gastar tempo refletindo. Porque, se o choque não contiver nada além do próprio choque, você não consegue tirar ninguém do estado blasé.</p>
<p>(Aliás: nego acha super <em>cool</em>  dizer que é <em>blasé, </em>como se isso significasse que você está cagando para o mundo. Errado. <em>Blasé</em> é o estado de espírito de quem tem estímulos demais - ou seja: nada mais contemporâneo e normal, não tem nada de incrível... A defesa do cérebro para o excesso de estímulo é não prestar mais atenção em nada e aí a pessoa fica com aquela cara de bunda. )</p>
<p>Esses artistas apressados de hoje só fazem a pessoa blasé levantar as sobrancelhas por alguns segundos, dizer: "uau, estou chocado" e pronto, no minuto seguinte já volta à letargia.</p>
<p>Por isso que eu digo: gentê, menos Bukowski e mais Clarice Lispector. Acho que a verdadeira transgressão hoje em dia é fazer com que a pessoa pare e volte-se para si mesma. Mergulhe dentro de si. Ser beberrão, seco e escatológico é só mais um nicho de consumo.</p>
<p>PS - Pior foi a <a href="http://portalliteral.terra.com.br/Literal/calandra.nsf/0/D879498720CB21C203256FCE00658E10?OpenDocument&#38;pub=t&#38;proj=literal&#38;sec=Olho" target="_blank">entrevista de Cecília Giannetti para o Portal Literal</a>, na qual ela disse que Clarice Lispector é apenas "jorro emotivo desvairado no papel". Querida Cecília, já que você é considerada por alguns uma das promessas da nova literatura, acho que tem a obrigação de reler a Clarice, pois claramente você não a entendeu. Clarice é justamente o CONTRÁRIO de jorro emotivo desvairado. Seus personagens se autodesvendam com minúcia, com cuidado, com calma. Aposto que boa parte dos escritores contemporâneos (Giannetti inclusa) não conseguiria escrever mais do que cinco linhas sobre uma mulher que reflete sobre medo e tolerância ao olhar para uma barata. Jorro emotivo desvairado é a literatura-vômito que muitos fazem hoje em dia. Nada a ver com Clarice.</p>
]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[4 de julho]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=232</link>
<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 12:33:38 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Corríamos enquanto o céu explodia, a polícia logo atrás: &#8220;não pode soltar isso aqui, seus]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Corríamos enquanto o céu explodia, a polícia logo atrás: "não pode soltar isso aqui, seus moleques". Mas se era justamente para isso, seu guarda: ser moleque. Não é vergonha nenhuma! O céu não está mais colorido do que o meu dentro.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=230</link>
<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 12:16:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Os ossos tilintavam de frio: 5 graus na madrugada paulistana. Maria olhava a calçada malhada de man]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Os ossos tilintavam de frio: 5 graus na madrugada paulistana. Maria olhava a calçada malhada de manchas negras de chiclete, a gente mal-educada e mal servida. Os outros sentidos todos fugiram para detrás da porta ou do tapete, envergonhados, emaranhados, tristes, deixando só a visão no comando das caldeiras todas de Maria-máquina.</p>
<p>João falava alguma coisa para se esquentar. Achava graça na baforada branca que pulava da boca. As palavras mais pesadas tinham baforadas mais brancas, como uma afronta se espatifando na cara do mundo. Já as boas eram quase morte: só um sopro, soprinho.</p>
<p>Sem nem pedir, Maria foi entrando leve no Café Soneto, aquele para o qual olhava sem óculos e achava que se chamava café sorvete - café sorvete? Será uma lista sem vírgulas ou um cardápio incompleto? Até que atravessou a rua e percebeu quão simpático era o ambiente do lado de lá da portinhola. Quadros da São Paulo antiga (Marc Ferrez?), cardápio extenso e lamparinas de papel de seda sobre a mesa.</p>
<p>João comentou que o lugar era um hiato, todo mundo sem casaco. Mas aí xeque-mate.</p>
<p>As palavras foram subindo em turbilhão pelo fino esôfago da moça, enraivecidas e suicidas, atirando-se aos montes pela boca e contaminando o mundo de raivas velhas recém-despertas. O que era isso? Veja, veja, João! João quieto, olhos fixos na boca de Maria, boca sonora pelo mesmo motivo por que os bebês balbuciam: para ouvir, para experimentar-se. Nácar-Tucuruvi-Baticum-Particípio-Estrupício, todas as palavras de som curioso de mãos dadas. O rosto esquentando.</p>
<p>___ João, estou me divertindo!</p>
<p>João lamentou ter desperdiçado todas as respostas na rua.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Nevoeiro]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=228</link>
<pubDate>Sun, 29 Jun 2008 16:07:24 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[O nevoeiro cobriu a cidade de branco, como se aquela fosse a última vez em que fechavam os olhos. F]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>O nevoeiro cobriu a cidade de branco, como se aquela fosse a última vez em que fechavam os olhos. Fechavam: ela e a cidade. Dizem que antes de morrer fica tudo branco: é quando deixamos de ser as panelas de pressão que são todos os seres humanos e, enfim, percebemos o que nunca se consegue em vida: que nada importa, que tudo desfalece em branco. Erro nosso achar que branco é sempre o começo, é sempre papel pedido para ser preenchido, obra de arte ainda por nascer, a fúria de produzir algum legado, qual que seja. Nada disso. Branco é onde tudo morre, quietinho. Basta respirar e esperar porque a morte vem. Ora, para quê perambular tanto, se a morte sempre vem?</p>
<p>Pensava nessas coisas todas, miúdas-miúdas, quando sentiu a presença de alguém. Não fez barulho, mas tinha aura de gente, a gente sempre percebe quando tem mais alguém. O que a emaranhava era que não sabia a que distância. Não, não era medo. Se fosse ladrão, se levasse o pouco que tinha, o melhor estava nas memórias. Tá ouvindo, seu ladrão? Leva as minhas coisas, mas não leva a mim. Nem se me matar porque o momento imediatamente anterior à faca nas minhas entranhas terei pra sempre: o branco do nevoeiro. É o mesmo branco que circunda o barco que leva... Pra onde? Não sei. Pouco importa. Nada importa. Acho que talvez não exista lugar nenhum aonde ir. Mesquinho achar que o além é lugar para penitências. Justo seria se fosse apenas uma realidade diferente, totalmente desconectada da que há aqui. Imagina? Dar de cara com sua mãe no além e não saber quem é. Dar de cara com todas as pessoas já lhe fizeram mal  e ficar tudo bem. Não é bonito? </p>
<p>Ela achava que o queria: o nevoeiro eterno. Havia meses só se lamentava, querendo o leve. Rotinatrânsitocronogramacracháhoramarcada. E cada hora de sono contada: a vida com cartão de ponto. Então, percebeu: como tinha de comer e morar, talvez não se sentiria leve nunca. Ei, seu estranho, ladrão sem rosto, enfia logo essa faca no meu bucho que tá demorando muito. Não se preocupe, não terei rancor, afinal seu rosto apenas goteja em branco. Goteja e gotejará, para todo o sempre-branco. Vai, senhor ladrão, desconhecido que já aprendi a querer bem, me leve lá aonde o barco sibila, onda cá onda lá. Para onde eu posso pensar.</p>
<p>E ele levou.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/2008/06/23/217/</link>
<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 12:49:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
<guid>http://marjorierodrigues.pt-br.wordpress.com/2008/06/23/217/</guid>
<description><![CDATA[Acordei com os dedos entre as tramas da rede &#8212; um peixe. E o meu corpo todo tinha cheiro de ma]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div>Acordei com os dedos entre as tramas da rede -- um peixe. E o meu corpo todo tinha cheiro de mar, o cheiro salgado de mar e de lágrimas: é o mesmo, é o mesmo, nunca reparou? Não quis debater-me.</div>
<div> </div>
<div>Ainda não nos conhecíamos (embora eu sinta como se o conhecesse a vida inteira, tanto que tenho vontade de perguntar se você se lembra) quando, criança, eu observava a marola bater nos meus pés pequenos. O resto de onda já recuando e os corruptos correndinhos areia abaixo - para onde, para onde? Eles tinham medo do sol. Eu ainda não sabia se. Sair dali não pode, dizia o pai, que observava de longe porque eu me irritava de estar sempre acompanhada. Supervisionada sempre, sim, era o jeito, mas pelo menos sozinha. Mas aí: a água nos pés.</div>
<div> </div>
<div>Eu era pequena demais para o mar, que me engoliria. Soube o mar e o mundo: me engoliriam. O tronco, a cabeça, a alma, tudo deglutido logo. Sempre. Mas, criança, a única esperança que tinha era a de que o dançar das ondas deixasse a minha imobilidade um tanto mais leve. Pensei que, talvez, se eu bem o olhasse, sentiria-me navegando somente com os olhos. Até que a onda fez bater uma concha nos meus pés e eu aprendi, criança, que o oceano inteiro cabia dentro dela.</div>
<div> </div>
<div>Não, você não se lembra. Custa-me, mas sempre me recordo de que somos sim divisíveis, divididos, corpos-concha. Somos dois.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Macabéia dois mil e oito]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=199</link>
<pubDate>Sun, 08 Jun 2008 20:56:23 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Tudo não passara de poucos segundos, mas parecia tão-tão lento o aproximar dos dois olhos brancos]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo não passara de poucos segundos, mas parecia tão-tão lento o aproximar dos dois olhos brancos que, enfim, a livrariam do tão indesejado corpo. Parece que demoraram a vida inteira para atingi-la.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Golpe]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/2008/06/06/197/</link>
<pubDate>Fri, 06 Jun 2008 21:56:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Meu amor, me perdoe, mas hoje estou ventando. Muito, muito rápido o vento vai passando por mim, me ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size:x-small;">Meu amor, me perdoe, mas hoje estou ventando. <span style="font-size:x-small;">Muito, muito rápido o vento vai passando por mim, me invadindo, entrando por um buraco e saindo por outro. O vento é tão rápido e gelado que é quase vertigem, é quase medo, é quase o calafrio que a gente sente logo antes de ser empurrado para o tobogã, para dentro do trem, para a vida. Um tapa na testa, sonoro. E eu não sei, não sei, simplesmente não sei o que dizer porque abro a boca e a baforada fria me escapa sem que eu sopre, como naqueles dias muito frios, de nevoeiro tão pesado que por um momento você acredita poder apanhá-lo se esticar a mão. Os meus pensamentos estão todos embaralhados, me desculpe. 'Me desculpe' é só o que eu sei dizer. É como uma crise de soluços, o ar golpeando o peito, é como um desfibrilador, esse choque no fim das costas. É como sair de um banho quente e lançar-se na rua para a chuva fria, é como estar na corda bamba, mambembe. Só há duas opções - sugar o ar de súbito: viver; ou deixar escapar um leve e lento sopro: morrer. Veja bem, meu bem, eu quis chorar no meio da rua porque o vento me irritava os olhos. Nunca me senti assim tão oca, tão necessitada de um peso no estômago ou talvez fosse mesmo de um soco o que eu precisava. Daqueles socos que fazem subir sangue vermelho e fervente pelo esôfago, só para me sentir viva, um chafariz de vida: a minha boca. Mas sou um chafariz seco, gelado e feito de pedra, sozinho no meio da praça. Eu pareceria muito mais menininha, muito mais frágil, de vidro, de vidro velho e opaco, se você me visse chorar. Não posso. Não posso, é preciso disfarçar o vento, manter os músculos da cara estáticos para que ninguém perceba nada, nada - como pastel barato que ninguém prevê que o recheio seja apenas de vento, de vento. Só quando você morde. Amor, pelo amor de deus, alguém me morda? Arranque um pedaço bem tarugo, para que saia o vento e o sangue e eu murche, como uma bexiga assim meio velha, fim de aniversário, os convidados todos indo embora, só a bagunça e as sobras e os anos nas costas. Quero murchar, sim? Quero sentir a cara toda afundando, até que a minha frente e o meu verso se toquem, se colem, se beijem e eu de fato possa ser abandonada num canto, como uma coisa velha, sem serventia, e ninguém-ninguém-ninguém vai se dar conta. Nem eu. </span></span></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Em branco]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=196</link>
<pubDate>Fri, 06 Jun 2008 21:50:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[A vida toda estive em luta contra a minha invisibilidade. Ela me foge justo quando mais preciso: dia]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size:x-small;">A vida toda estive em luta contra a minha invisibilidade. Ela me foge justo quando mais preciso: diante da multidão, estou nua. Noutras vezes, aquelas em que preciso ser vista e admirada para me sentir mais humana, minha invisibilidade me recobre toda, ciumenta, a danada. E assim tem sido. Estou sentada há bons minutos diante da tela em branco, matutando de que jeito eu melhor descreveria o oco que sinto ao encostar a mão no peito. Mas as palavras vão se escondendo dentro da cabeça, acho que nenhuma quer assumir o serviço. De repente, desembaço os olhos e vejo que a tela em branco é a melhor descrição que poderia fazer. Descendo pela minha garganta há o vazio: o vazio: o vazio: o vazio: o vazio</span></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[()]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=187</link>
<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 14:45:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[A sensação era a de abrir uma porta atrás da outra, uma porta dentro da outra: a minha casa inte]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div>A sensação era a de abrir uma porta atrás da outra, uma porta dentro da outra: a minha casa inteira era só portas. E não te encontrava nos relances que tinha dos cômodos antes de meter a mão na maçaneta seguinte - era como se tudo tivesse acabado de ser abandonado, o sinal de presença humana ainda pulsando, nos cantos, nos objetos mexidos. E à medida em que abria mais portas, a fila de portas, mais frios ficavam os fragmentos de ambientes que já não eram mais meus porque lar é com quem a gente mora, não onde.</div>
<div> </div>
<div>Me lembrei do horror que tinha quando menina, a minha mãe com fervor escorrendo poros afora, inundando o mundo de religião. Interpretava a bíblia toda ao pé da letra e me fez ler o apocalipse: os condenados serão abandonados no mundo: é o <em>arrebatamento</em>. Um dia, filhinha, você pode acordar e não ter mais ninguém. Se acordava e não ouvia nenhum barulho, eu logo me desesperava e ia vasculhar os cômodos inteiros. E dizia: jesus, jesus, talvez eu não queira viver com você, mas quero viver com eles, essas pessoas são minhas, seja onde for, elas sempre serão minhas. Claro que não tardou para eu descobrir que não são. As pessoas são nossas em flashes, tais como estes, a cama vazia, o lençol branco e preto revirado, você saiu depressa. Tinha pressa de quê?</div>
<div> </div>
<div>Vai ver você foi junto com as minhas reflexões, aquelas longas reflexões que tínhamos enquanto brincávamos de inventar nomes para a banda fictícia que formaríamos, na qual tocaríamos todos os instrumentos do mundo, inclusive os não inventados, para sermos os primeiros a traduzir perfeitamente o som que se ouve depois do amor, depois do orgasmo cheio. Sim, porque nos vazios há muitos, inúmeros sons. Há sempre o som do mundo lá fora, incitando à escapada, para nunca mais voltar. Mas, cheios, nós queríamos ficar ali. Entre o lençol branco e preto, ying e yang. </div>
<div> </div>
<div>Mas, um dia, depois da cheia, olhei pela janela e alguém me chamou. Então começaram todas as demandas. Já nem ando mais de relógio porque estou sempre atrasada para alguma coisa, para alguém. De início, as reflexões me esperavam em casa, de plantão na porta, mas sempre chegava exausta demais para examiná-las. Até que não me esperaram mais - e pior: sequer tive tempo de notar a ausência. Errei quando deixei que você virasse somente mais uma demanda e, agora, olha aí: tento escapar para os lados, mas estou presa no corredor polonês de portas. Tenho de abri-las, abri-las, abri-las, mesmo que nenhuma delas dê em alguma coisa que não seja somente outra porta.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Degraus]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=184</link>
<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 14:01:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Aperto os olhos, na esperança de que seja só miopia, mas o novo foco mostra o mesmo que o antigo. ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Aperto os olhos, na esperança de que seja só miopia, mas o novo foco mostra o mesmo que o antigo. Pelo menos os ouvidos se desligam: o mundo no modo mute. Se eu tivesse apenas um pedido, pediria para o fugidio escapar mais rápido.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Carta a B.]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=161</link>
<pubDate>Fri, 16 May 2008 14:25:24 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Pra você eu sempre dou colher de chá. Se o mundo não te valoriza, eu valorizo. Se o mundo pensa q]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Pra você eu sempre dou colher de chá. Se o mundo não te valoriza, eu valorizo. Se o mundo pensa que você não se esforça, eu penso. Se o mundo acha que você não tem talento, eu acho. E não sei se estou certa. Talvez você não passe de um <em>porranenhuma,</em> mas é um porra nenhuma que manteve a bondade. Logo, raro. Muito raro.</p>
<p>Sei de pouca coisa - me faltam respostas simplesmente porque não sei que pergunta fazer. Mas de uma coisa eu sei: que as pessoas boas, boas de coração e de verdade, genuinamente boas, deveriam ter algum tipo de recompensa. Sempre digo que admiro o fato de você não ter perdido a inocência de criança - mas parece que, para o mundo, isso é um grande problema. Afinal, só o que importa é cortar cabeças durante a escalada. </p>
<p>Pelo menos enquanto estou com você, penso que, com jeitinho, pode ser até que o mundo tenha solução. Experimento de novo a sensação (há muito perdida) de ter os olhos virgens.</p>
<p>Não importa quão mal você se sinta quando os outros sorriem-de-canto-de-boca, pretensamente irônicos mas tão sutis quanto uma bigorna caindo sobre sua cabeça. Nunca, por favor, nunca mude, porque se tem uma coisa certa nessa vida é que a gente não deve pedir desculpas por ser quem é. Principalmente você.</p>
<p>Quantas vezes não ouvi da minha mãe: "vai, menina, fala alguma coisa, dá um sorriso"; ela dizendo isso sem perceber que já me sinto bem participativa só ouvindo e pensando. Ser quieto é uma forma de precaução, de se calçar. Quando segui o conselho e dei um sorriso amarelo, forçado e provavelmente feio, mas socialmente ajustado, me senti triste. Violada, talvez: aquela não era eu. Era outra pessoa me empurrando para debaixo do tapete.</p>
<p>Então, aceitemos: eu sou assim, com a minha quietude e com os meus ouvidos atentos, e você é assim, com a sua bondade insuperável, imbatível. O natural é sempre mais bonito, meu bem. Já reparou que o artificial, o industrializado, sempre quebra mais fácil? É que a mentira não resiste. Não foi feita para resistir.</p>
<p>Quando estou esperançosa, peço para esse deus que não existe (mas às vezes é legal acreditar nele) que, no meio do seu caminho, apareça alguém de olhos virgens, como os seus, e lhe dê uma chance. Uma chance de dar um tapa na cara da vida e dizer: este sou eu.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Do Polaroid]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=156</link>
<pubDate>Wed, 14 May 2008 22:21:31 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Acredita que esses jornais malditos nunca se debruçaram sobre seu sumiço? Ainda crente na imprensa]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><em>Acredita que esses jornais malditos nunca se debruçaram sobre seu sumiço? Ainda crente na imprensa e seu suposto quarto poder, indignava-me ao ligar para as redações e dizer: “como é que pode? Como é que pode?”. Eles respondiam: “como é que pode o quê?”. Eu emendava: como é que pode uma mulher jovem, culta, de classe média, desaparecer sem deixar pistas e nenhum jornal noticiar o sumiço? A voz do outro lado da linha não dava a menor bola. Todos me trataram por louco, meu bem, o que só me deixava mais puto: ninguém se interessava pelo caso, ninguém sabia de nada, ninguém ouviu falar de nada, ninguém sentia sua falta, ninguém se lembrava do seu perfume. Diziam: e eu com isso? Indaguei: e eu comigo? No olhar alheio, ouvi a resposta: sim, só você contigo, mais ninguém.</em></p>
<p>Se eu bem pescar, até que tem coisas bacanas no livro que um dia hei de terminar (espero não morrer antes).</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Lisérgica]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=143</link>
<pubDate>Tue, 06 May 2008 22:14:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Nesses últimos meses, a maior prova de amor que posso oferecer é esta: ficar acordada por você. N]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Nesses últimos meses, a maior prova de amor que posso oferecer é esta: ficar acordada por você. No dia seguinte, não me importo de meus olhos fecharem quase involuntariamente o dia inteiro, não me importo que ficar acordada seja tão insuportável - afinal, você não é como ressaca, que sempre me deixa arrependida. Nada de boca seca. Você mata a minha sede de sentido, de sentir, de achar graça nas coisas.</p>
<p>Porque nada mais tem graça.</p>
<p>Ando de rosto virado contra o mundo, porque nada mais surpreende. São apenas números e estimativas e estatísticas; tudo medido, metrificado, mensurável. Eu gosto é do que não tem borda. Eu gosto é de metáfora, de pleonasmo, de despejar as palavras como criança espalhando água pelo quintal com sua espadinha que faz bolhas de sabão - afinal, depois que as palavras saem da boca ou das mãos, elas estouram feito bolhas mesmo. As palavras são redondas e instáveis, feito bolhas. Não se sabe onde começam, não se sabe onde terminam. Elas têm cor de gasolina no asfalto, essa cor que é de nada e ao mesmo são todas, essa cor que é o que você quiser, basta escolher de onde olhar. As palavras são assim e eu sou toda palavras contigo.</p>
<p>Sou toda fluidez e eternidade, relativismo, o tempo suspenso. Não sentir o peso do tempo nos ombros simplesmente porque ele não conseguiu entrar, está com a cara enfiada no vão da porta entreaberta com a correntinha. É o vácuo, é o vazio - mas não o vazio que sufoca, que mata, essa necessidade humana e urbana de preencher tudo com gente, com dinheiro, com qualquer coisa (mas nada, nada mesmo basta). É vazio como cama grande e macia: poder esticar os braços e as pernas e sentir todos os músculos e os ossos, o corpo vivo.</p>
<p>Você me enche de verborragia e esta sou eu, esta sou eu, toda errada. Cansei de escrever sem artigos nem adjetivos, com precisão, checagem, rechecagem, <em>nunca escreva por extenso números com muitos zeros</em>, cansei da vida com manual de redação. Cansei de relógio. E é isso que você me dá, a tal da elasticidade. Não tenho ânsia de ser mim mesma nem sequer de descobrir quem é essa pessoa no espelho. Contigo posso ser qualquer coisa. E mudar, mudar de um minuto para o outro. Sem remorso nem regras, porque a essência está aqui, o caule, a espinha dorsal, que é sua, é sua. Minha única constância é essa, esse sentimento inomeável que eu chamo de amor, mas me arrependo logo depois de pronunciar a palavra, porque ela limita, rotula, reduz.</p>
<p>Eu quero que você saiba que meu sentimento por você são todas as palavras do mundo. Meu sentimento por você é vertigem e linguagem. E quero que saiba que ele, o meu sentimento, não tem cor definida - sempre pensei que as cores, por mais que tenham zilhões de subtons, são finitas. Pense em todas as cores que você conhece… Se não pensar em "claro", "escuro" e apostos, logo ficará sem nomes para citar.</p>
<p>O que eu sinto por você se abre em flor a cada quarto de segundo. As pétalas todas caindo sobre nossas cabeças, como chuva leve. E fica maior e maior e explode, como fogos de artifício. Como orgasmos. Como soluços, um dentro do outro. E isso é mais potente do que qualquer droga, posso ficar acordada a noite toda, o resto da vida, criar bolsas debaixo dos olhos, não importa. Com você, só não posso dormir porque dormir é, sobretudo, silêncio.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[torrente]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=137</link>
<pubDate>Fri, 02 May 2008 16:44:54 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
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<description><![CDATA[Arrancaram a película de lirismo que recobria meus olhos. Não vejo nas coisas nada além da superf]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div>Arrancaram a película de lirismo que recobria meus olhos. Não vejo nas coisas nada além da superfície, da casca dura, não sei adivinhar o interior, não sei precisar o que causam em mim. Não tenho mais memórias porque me forçaram a acreditar que o passado não importa, há tanto-tanto-tanto acontecendo agora mesmo, nesse instante, e, de tudo isto, o que menos importa é você, mocinha, você e seu passo arrastado de quem precisa viver de passado porque achou que ele iria durar mais um pouco para dar tempo de você decifrar o gosto.</div>
<div> </div>
<div>Pois é, a vida tem sido assim: mantive tudo demais na língua, querendo saber qual era a essência do gosto das coisas (nada de apenas engolir, engolir, engolir). Eu queria sobretudo entender se o que sobrava ao final era doce, amargo, salgado ou o quê. Mas não houve tempo para isso e agora tenho aqui essa cartela de gostos mal rasgados, essa bagunça toda, nada catalogado, sem todo, sem corpo, sem mim. E isto é que é o mais complicado - porque, se não consegui entender essas coisas, estas, as mais cruciais, como é que posso voltar o olhar para fora?</div>
<div> </div>
<div>Sou virgem da vida que não espera e agora essa luz, essa luz maldita que não sei quem pôs, estraga meus olhos e é como se alguém os forçasse a continuar abertos sempre, afinal, no momento em que fechá-los, o catálogo de gostos voltará em sonho e lá posso ser qualquer coisa, qualquer coisa de mais verdadeiro do que isto, esta máquina de separar o que é relevante para todo mundo, menos para mim. Decifrar o meu dentro é um perigo para alguém, não sei para quem. Sinto que é porque há tanto aqui dentro que inundaria tudo de verdade pura, aquela em que o relevante e o irrelevante são indissociáveis.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[]]></title>
<link>http://marjorierodrigues.wordpress.com/?p=128</link>
<pubDate>Thu, 01 May 2008 22:40:31 +0000</pubDate>
<dc:creator>marjorierodrigues</dc:creator>
<guid>http://marjorierodrigues.pt-br.wordpress.com/2008/05/01/128/</guid>
<description><![CDATA[E não é que, por trás das olheiras, das dores e da corcunda que já aparece, descubro que ainda p]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>E não é que, por trás das olheiras, das dores e da corcunda que já aparece, descubro que ainda posso ser moça? Como sofreu, a coitadinha. Mas tinha uma parte do sofrimento que era gostosa, antes do mundo desmoronar e ela descobrir que era feia: a de observar o mocinho da carteira ao lado e imaginar-se fazendo coisas bobas, cenas de filme: tomar sorvete na esquina, roubar beijo, compartilhar o fone de ouvido. Nada disso se concretizaria, mas só imaginar bastava.</p>
<p>Pois bem, a mocinha voltou. Fico feliz em ver o coração palpitar por nada. Sinal de que não amarguei de todo.</p>
]]></content:encoded>
</item>

</channel>
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