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	<title>reforma-teologia &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/reforma-teologia/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "reforma-teologia"</description>
	<pubDate>Tue, 07 Oct 2008 06:26:22 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[Quando rezar com as mãos é melhor]]></title>
<link>http://contrasenso.wordpress.com/?p=121</link>
<pubDate>Fri, 27 Jun 2008 05:21:10 +0000</pubDate>
<dc:creator>André Tavares</dc:creator>
<guid>http://contrasenso.pt-br.wordpress.com/2008/06/27/121/</guid>
<description><![CDATA[A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber, foi um dos livros mais importantes ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo</em>, de Max Weber, foi um dos livros mais importantes do século XX, quem sabe o masi importante no campo das ciências humanas. A tese de Weber, grosso modo, diz que um determinado <em>ethos</em>, o protestantismo do século XVII, foi o substrato  encontrado pelo capitalismo para se desenvolver num determinado ponto da história. Dito de outro modo, a ética protestante (calvinista) exerceu grande influência na configuração do capitalismo.</p>
<p style="text-align:justify;">O que isso quer dizer? Que sem protestantismo o capitalismo teria se desenvolvido de uma outra maneira, ou mesmo não teria se desenvolvido. O calvinismo se tornou uma força cultural na economia na medida em que encorajava o crente a se lançar no trabalho no "mundo secular" como uma forma de culto, fazendo de seu serviço no mundo uma forma de louvar a divindade, uma expressão da sua fé.</p>
<p style="text-align:justify;">Há uma série de interpretações equivocadas sobre a tese de Weber, como dizer que para o protestantismo a riqueza é um sinal de salvação, ou coisa do gênero. Sem entrar no mérito da questão, a "tese por trás da tese" é que existem forças culturais que movem as pessoas numa determinada direção por meio da ética que produz uma orientação moral. Essas "forças" culturais são as idéias base que moldam a maneira como alguém, numa determinada cultura, enxerga ou compreende o mundo; formaando uma <em>cosmovisão</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">O protestantismo calvinista motiva o fiel a trabalhar no mundo como forma de adoração porque, ao contrário do catolicismo medieval, compreendia o mundo como Criação, ou seja, feito por D'us, logo, algo bom. Assim, a distinção entre material e espiritual, secular e sagrado, foi invalidada - um monge e um carpinteiro são igualmente preocupados com o serviço a D'us (quem sabe o carpinteiro fosse até mais) nesse contexto.</p>
<p style="text-align:justify;">Ontem (26/06), a BBC publicou em seu site <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/06/080626_egitoclerigo_rc_ac.shtml">uma matéria</a> muito curiosa sobre um clérigo islâmico que exorta seus fiéis a "rezar menos e trabalhar mais". Segundo a reportagem, no Egito, o <em>status</em> de alguém cresce quanto mais é religioso; e quanto mais religioso, mais tempo dedica-se às orações, recitações e abluções, e menos tempo sobra para coisas mundanas como o trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">O resultado disso é uma queda considerável na produção entre alguns egípcios muçulmanos. E esse comportamento parece ganhar força nos países muçulmanos de orientação sunita, como a Arábia Saudita. E antes que se diga que um comentário como esse não é mais que o resultado de um olhar ocidental sobre uma outra cultura, vejamos que a censura foi lançada por clérigos do Islam no Egito.</p>
<p style="text-align:justify;">A teologia e a fé são primordialmente importantes na medida em que formam a nossa cosmovisão, a maneira como compreendemos o mundo - contudo, a religião institucional, mesmo tendo seu lugar, <em>não pode se tornar um empecilho para o desenvolvimento da nossa boa relação com as outras áreas da vida e com o mundo. </em></p>
<p style="text-align:justify;">“Rezar é algo bom... 10 minutos devem ser suficientes”, recomenda o <em>sheik</em> Yusuf Qaradaw; o que me faz lembrar que o Talmud recomenda orações curtas na semana, para não comprometer os afazeres cotidianos - e quase todos os sábios judeus, com raríssimas excessões, tiveram uma profissão paralela aos estudos (artesãos, principalmente).</p>
<p style="text-align:justify;">A sinceridade da espiritualidade não está contida no ritual religioso; mas está, justamente, na maneira como orienta a ação nas outras dimensões da vida. A crença estanque, que não diz respeito a nenhum outro aspecto da experiência, ou a religião que algema e cerceia toda a vida sob seu governo castrador só fazem deformar a realidade, tornando a existência ou numa série de secções descontínuas, ou numa falsa unidade reducionista e rasa - produzem, ambas, <em>irrealidade. </em></p>
<p style="text-align:justify;">O protestantismo liberou os homens e as esferas da vida do domínio da religião institucional, lançou-os para alcançar novos desenvolvimentos... eventualmente, perdeu sua força cultural, e foi solapado por outras idéias que nos conduziram a graves tragédias... mas ainda preservamos o valor da inciativa, da cooperação associativa - o que não é pouco.</p>
<p style="text-align:justify;">O Judaísmo forneceu uma base anterior para os reformados, apregoando desde muito tempo a necessidade de <em>tikkun ha'olam</em>, concerto do mundo, pela atuação do homem para o estabelecimento da justiça, da boa ordem em toda instânicia da Criação.</p>
<p style="text-align:justify;">O Islam, porém, vai aumentando suas tensões: as classes médias muçulmanas querem reformas e liberdade para prosperarem, as lideranças políticas querem poder e controle, e os clérigos querem uma só disciplina (o Islam) sobre todas as coisas. Essa combinação entre controle opressivo e frustração tem um resultado bastante ruim para os ânimos de qualquer um.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas fazer o quê, quando a única alternativa é rezar?</p>
<p style="text-align:justify;">
<div style="border:0 none;display:inline;float:none;color:black;background-image:none;background-color:transparent;min-height:0;min-width:0;line-height:0.8;position:absolute;z-index:2147483647;left:230.875px;top:61.875px;margin:0;padding:0;"><img style="border:0 none;display:block;float:none;color:black;background-image:none;background-color:transparent;min-height:0;min-width:0;line-height:0.8;position:absolute;left:28px;top:28px;width:20px;height:20px;visibility:hidden;margin:0;padding:0;" src="//easygestures/skin/small_link.png" alt="" /><img style="border:0 none;display:block;float:none;color:black;background-image:none;background-color:transparent;min-height:0;min-width:0;line-height:0.8;position:absolute;z-index:2147483647;visibility:hidden;margin:0;padding:0;" src="//easygestures/skin/matchCase_Off.png" alt="" /><img style="border:0 none;display:block;float:none;color:black;background-image:none;background-color:transparent;min-height:0;min-width:0;line-height:0.8;position:absolute;z-index:2147483647;visibility:hidden;margin:0;padding:0;" src="//easygestures/skin/searchWebSign.png" alt="" /><img style="border:0 none;display:block;float:none;color:black;background-image:none;background-color:transparent;min-height:0;min-width:0;line-height:0.8;position:absolute;left:58.125px;top:-4px;visibility:hidden;margin:0;padding:0;" src="//easygestures/skin/altMenuSign0.png" alt="" /></p>
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</item>
<item>
<title><![CDATA[Resposta a um anti-sionista]]></title>
<link>http://contrasenso.wordpress.com/?p=110</link>
<pubDate>Fri, 09 May 2008 21:32:02 +0000</pubDate>
<dc:creator>André Tavares</dc:creator>
<guid>http://contrasenso.pt-br.wordpress.com/2008/05/09/resposta-a-um-anti-sionista/</guid>
<description><![CDATA[Quando escrevi o post passado, sobre os 60 anos de Israel, eu esperava algum comentário que demonst]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Quando escrevi o <em>post</em> passado, sobre os 60 anos de Israel, eu esperava algum comentário que demonstrasse "repulsa", "vergonha" ou "recusa" quanto às minhas palavras, e à própria celebração da existência do Estado de Israel. Também esperava que tivesse que me posicionar com clareza, então, faço-o (mais uma vez): eu sou sionista. Acredito e defendo o direito de uma pátria nacional judaica naquele território chamado por alguns de Palestina histórica. Sou também um seguidor da Torá, que assegura direitos ao estrangeiro como nenhum outro documento no mundo, anterior, contemporâneo ou posterior. Portanto, nas palavras do Rabino Shulam: os árabes podem não ter <strong>direito à Terra</strong>, mas têm <strong>diretos na Terra</strong>. Isso quer dizer que sou a favor da reconciliação, da paz e dos direitos de árabes e palestinos - direitos já assegurados aos que são cidadãos israelenses (veja <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080507_israel60arabesmg.shtml">essa reportagem da BBC</a> - que definitivamente não é Sionista ou pró-Israel).</p>
<p style="text-align:justify;">Um certo leitor deste blog, chamado <em>gabriel</em>, escreveu o seguinte comentário a respeito do <em>post</em> e seu conteúdo:</p>
<p style="text-align:justify;">
<blockquote>
<p style="text-align:justify;">Mesmo com todo o respeito e admiração que tenho pelo povo e pela cultura judaica, ainda assim não consigo esconder a repulsa que sinto pelo grupo judaico-sionista. É estranho como estes não percebem que o mesmo mote que os move, é também o de atuais seus agressores: a legitimação divina.</p>
<p style="text-align:justify;">Movidos por uma premissa tão distante da racionalidade necessária para o entendimento entre culturas, é difícil distinguir qualquer um dos lados como agressor ou agredido. E o que dizer de definir aquele que seria o “verdadeiro grupo escolhido dos céus”, como se coubesse tamanho despautério na diplomacia contemporânea. Mas pelo visto, não sendo estruturada no racionalmente plausível, a tal disputa só resta o caminho da guerra. E enquanto houver grupos que baseiam demarcações territoriais - ou quaisquer intentos que caibam apenas no campo da legalidade terrena - em determinações divinas, haverá conflitos e mortes em consequência.</p>
<p style="text-align:justify;">Vale ressaltar, que aqueles que servem de guias e propagadores dos embustes sionistas (aí incluso o autor deste post) têm tanta culpa por cada cadáver no solo de Israel quanto os terroristas, que não passam de mais uma instância nesta cadeia.</p>
<p style="text-align:justify;">Com premissas tão próximas me pergunto: como um sionista se distingue de um homem-bomba, tendo em vista a legitimidade de suas motivações?</p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Gostaria de responder ao <em>gabriel</em>, mas de forma não específica, porque ele se parece mais com um leitor genérico, ou seja, reproduz aqui uma série de erros e definições no mínimo equivocadas  - o que não lhe retira o direito de opinião e posicionamento, mas pede que arque com o ônus de exprimí-la publicamente (como eu também faço) e em blog alheio (o que não é um problema, aliás, qualquer um é bem vindo a ler e opinar aqui...).</p>
<p style="text-align:justify;">Vejamos então o que um típico anti-sionista, cheio de sensibilidades e <em>incapaz de fazer distinções</em> pensa, e onde entendo que erra.</p>
<p style="text-align:justify;">Primeiro, o sionismo não é um movimento religioso. Ele tem uma expressão religiosa entre os religiosos que são sionistas e representam suas crenças e legitimação em seu campo de interpretação da realidade a partir da exegese do texto sagrado por seus sábios. Mas qualquer um que se disponha a estudar a história do Sionismo sabe que o movimento é fundamentalmente secular. Theodor Herzl, pai do Sionismo, era um jornalista judeu austro-húngaro assimilado, que ao cobrir o <em>Affaire Dreyfus</em> na iluminada França viu que mesmo ali o "problema judaico" permanecia, assim como nos países menos avançados em termos democráticos e em tolerância; em qualquer lugar, viu Herzl, onde houver judeus, haverá anti-semitismo. A única forma de resolução para a  questão judaica, era a constituição de um lar nacional judeu.</p>
<p style="text-align:justify;">Ora, onde está, em Herzl, a busca ou uso de "legitimação divina"? Ou, ainda mais explícito, o caso do proto-sionista Moses Hess - um comunista secularista que vui a eclosão de anti-semitismo no que seria a Alemanha dali a pouco tempo. Mesmo retornando ao Judaísmo, o fez na forma "panteísta de Espinoza"... francamente, muito distante de qualquer ortodoxia judaica, e muito mais uma doutrina filosófica que exatamente religiosa.</p>
<p style="text-align:justify;">David Ben-Gurion, o pai do Estado de Israel propriamente dito, ainda que defendendo um lar judaico, estabeleceu as bases do estado em características seculares (desde sua definição do que é um judeu, profundamente diferente da definição rabínica tradicional), e desafiou a ortodoxia judaica (curiosamente, o uso da Estrela de David ao invés de uma menorá é uma provocação aos religiosos).</p>
<p style="text-align:justify;">Contudo, isso não exclui os matizes religiosos do Sionismo, que existem e são bastante influentes tanto em Israel como na Diáspora. E isso me leva ao segunto problema do raciocínio anti-sionista representado acima.</p>
<p style="text-align:justify;">A menos que <em>gabriel</em> seja um positivista ou pitagórico, acredito que em todas as vezes que usa a palavra <em>racionalidade</em> queira dizer <em>secular </em>ou <em>secularidade</em>, ou seja, que para tornar plausível e haver entendimento entre disputas e conflitos, no caso, internacionais, é preciso que todos os envolvidos se abstenham de seus pressupostos <em>não-racionais</em>. É a velha ladainha de <em>Westphalia</em>: retiramos a religião das questões, e os conflitos se acabam (ou são mais facilmente resolúveis). Isso não deu certo com os Estados Nacionais, não funcionou com os Estados laicos - e toda a paz que se conseguiu na Europa, se conseguiu com os Estados Protestantes ou por ação dos protestantes reformados.</p>
<p style="text-align:justify;">Portanto, as demandas religiosas podem não ser redutíveis a fórmulas racionais - mas isso não as torna menos relevantes. Nem retirá-las da mesa de negociação tornou as coisas mais fáceis. Contudo, é possível pensar em pressupostos religiosos ou teológicos que facilitem o debate e a paz ou que conduzam unicamente ao conflito e guerra. E nesses termos, a posição árabe-muçulmana é mais complicada: todo território que já foi conquistado pelo Islam <em>é </em>do Islam, e se porventura caiu nas mãos dos infiéis, é dever do muçulmano recuperá-la. Isso torna a mesa de negociações e o direito internacional ocidental inviável.</p>
<p style="text-align:justify;">O Estado de Israel foi fundado com a aprovação de uma entidade reconhecida inclusive pelos que tiveram o voto vencido - e o não reconhecimento da resolução é o mesmo que rejeitar a legitimidade da entidade. Se os árabes reconhecem a ONU e hoje usam a resolução 181 para que Israel retorne às fronteiras determinadas pelo documento, precisam reconhecer o direito de existência de Israel. O que, definitivamente, não querem fazer. Israel ampliou suas fronteiras em '48, '53 e '67 em guerras de agressão iniciadas pelos países árabes (Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque), e as anexações estão previstas na Convenção de Genebra - todo país agredido tem direito de anexar áreas estratégicas para sua defesa enquanto estiver ameaçado.</p>
<p style="text-align:justify;">Quanto ao problema da distinção entre gressores e agredidos, basta a todo anti-sionista, ou qualquer um interessado no embasamento das coisas, ler o <em>White Paper</em>, relatório britânico durante o Mandato da Palestina, que descreve o que a população árabe fez aos judeus refugiados na Palestina. Basta que se estude e ouça os arquivos de audio de rádios e de jornais árabes na época. Basta ver quem iniciou o ataque em maio de '48, '53, '67, '73...</p>
<p style="text-align:justify;">Basta olhar a vida de um árabe cidadão israelense, ou um druso, ou um bérbere, ou um samaritano, ou um cristão sírio, maronita, grego ou romano em Israel. E depois compara com o que passa cada uma dessas pessoas em territórios árabes. Tente um <em>gabriel </em>da vida tentar cidania israelense (o que fará como em qualquer outro país democrático) e no Egito... somente tente.</p>
<p style="text-align:justify;">Se <em>gabriel </em>não consegue, ainda, distinguir entre um sionista e um homem-bomba em termos de premissas e finalidades, eu vou tentar ajudar. Um sionista tenta estabelecer um Estado em bases democráticas, e é confrontado com vontades contrárias que intentam o extermínio do povo judeu "empurrando-os para o mar". Um sionista combate soldados em termos militares, um homem-bomba explode crianças, jovens em bares, religiosos em sinagogas, trabalhadores em ônibus.</p>
<p style="text-align:justify;">Por fim, em termos religiosos, não há que se <em>definir o verdadeiro povo escolhido</em>; em termos religiosos isso já está estabelecido, de maneira distinta, claro, em cada fé. Mas é curioso notar que há também uma religião secular, a qual <em>gabriel </em>parece professar, que estabelece a culpa pela presença de idéias teo-referentes. E esse tipo de coisa terminou no Terror na França e nos <em>gulags</em> soviéticos.</p>
<p style="text-align:justify;">Embuste, me parece, é esconder desinformação num discurso cheio de sensibilidades... francamente, quem não sabe distinguir, que não emita juízo - e olha que quem disse isso foi um racionalista: Descartes.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Calvino e os Judeus - I]]></title>
<link>http://contrasenso.wordpress.com/2007/08/30/calvino-e-os-judeus-i/</link>
<pubDate>Thu, 30 Aug 2007 19:58:46 +0000</pubDate>
<dc:creator>André Tavares</dc:creator>
<guid>http://contrasenso.pt-br.wordpress.com/2007/08/30/calvino-e-os-judeus-i/</guid>
<description><![CDATA[
A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as c]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">
<p align="justify">A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os <em>shtetl</em>) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.</p>
<p align="justify">Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios - e como tudo o que é "os outros" é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a "questão judaica". Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos - vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.</p>
<p align="justify">Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois "tipos": os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha - a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado... o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de <em>Dos judeus e suas mentiras</em>.</p>
<p align="justify">O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.</p>
<p align="justify">Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus - estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da "reformada" Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.</p>
<p align="justify">A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse "insumos empíricos". Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com "gramatical" e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão... Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.</p>
<p align="justify">Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à "teimosia talmúdica". Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.</p>
<p align="justify">Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica - um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.</p>
<p align="justify">Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: <em>Calvinus Judaizans. </em> Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.</p>
<h6>*BARON, Salo.  João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu.  1974. São Paulo: Editora Perspectiva.</h6>
]]></content:encoded>
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