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	<title>luiz-fernando-verissimo &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/luiz-fernando-verissimo/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "luiz-fernando-verissimo"</description>
	<pubDate>Sat, 26 Jul 2008 07:31:21 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

<item>
<title><![CDATA[Exigências da vida moderna]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=613</link>
<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 03:41:36 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[
(quem agüenta tudo isso??) 

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferr]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:13.5pt;"></p>
<h5 style="background:white;margin-bottom:5pt;margin-left:72pt;margin-right:72pt;text-align:center;"><span style="font-family:&#34;"><span style="color:#808080;">(quem agüenta tudo isso??) </span></span></h5>
<h5 style="background:white;"><span style="text-decoration:underline;"><span style="font-family:&#34;"></span></span><span style="font-family:&#34;"><br />
<span style="color:#808080;">Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.<br />
E uma banana pelo potássio.<br />
E também uma laranja pela vitamina C.</p>
<p>Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.<br />
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água.<br />
E uriná-los, o que consome o dobro do tempo. </span></span></h5>
<h5 style="background:white;margin-right:72pt;"><span style="font-family:&#34;"><span style="color:#808080;">Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).</p>
<p>Cada dia uma Aspirina, previne infarto.<br />
Uma taça de vinho tinto também.<br />
Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.  <br />
Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem.<br />
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.</span></span></h5>
<h5 class="MsoNormal" style="margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;line-height:115%;font-family:&#34;"><span style="color:#808080;">‘Todos os dias deve-se comer fibra.<br />
Muita, muitíssima fibra.<br />
Fibra suficiente para fazer um pulôver.<br />
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.<br />
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada.<br />
Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia.</p>
<p>E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.<br />
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.<br />
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.</p>
<p>Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.<br />
Sobram três, desde que você não pegue trânsito.</p>
<p>As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia.<br />
Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).</span></span></h5>
<h5 class="MsoNormal" style="margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;line-height:115%;font-family:&#34;"><span style="color:#808080;">E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.</p>
<p>Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.</p>
<p>Ah! E o sexo.<br />
Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina.<br />
Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução.<br />
Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico.</p>
<p>Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.</p>
<p>Na minha conta são 29 horas por dia.</p>
<p>A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!!</p>
<p>Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais.<br />
Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher.</p>
<p>Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.</p>
<p>Agora tenho que ir.</p>
<p>É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.</p>
<p>E já que vou, levo um jornal...</p>
<p>Tchau....</p>
<p>Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.</span></span></h5>
<p></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Amenidade do dia]]></title>
<link>http://groselhasamenas.wordpress.com/?p=117</link>
<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 15:46:12 +0000</pubDate>
<dc:creator>Sr. Groselha</dc:creator>
<guid>http://groselhasamenas.wordpress.com/?p=117</guid>
<description><![CDATA[Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que plan]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;line-height:150%;font-family:Arial;">Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;line-height:150%;font-family:Arial;">Porque, embora quem quase morre esteja vivo...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;line-height:150%;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;line-height:150%;font-family:Arial;">...quem quase vive, já morreu!</span></p>
<p class="MsoHeader" style="text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoHeader" style="text-align:justify;margin:0;"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Luiz Fernando Veríssimo</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Grande Edgar]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=597</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 21:02:10 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=597</guid>
<description><![CDATA[Já deve ter acontecido com você.
— Não está se lembrando de mim?Você não está se lembrando ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#888888;">Já deve ter acontecido com você.</span></p>
<p><span style="color:#888888;">— Não está se lembrando de mim?Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?</p>
<p>Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.</p>
<p><!--more--></p>
<p><font color="#888888">Um, curto, grosso e sincero.</p>
<p>— Não.</p>
<p><span style="color:#888888;">Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.</p>
<p></span></p>
<p></font></span></p>
<p> </p>
<p> </p>
<p align="justify"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">— Não me diga. Você é o... o..."Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:</p>
<p>— Desculpe, deve ser a velhice, mas...</p>
<p>Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.</p>
<p>E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.</p>
<p>— Claro que estou me lembrando de você!</p>
<p>Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:</p>
<p>— Há quanto tempo!</p>
<p>Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.</p>
<p>— Então me diga quem sou.</p>
<p>Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:</p>
<p>— Pois é.</p>
<p>Ou:</p>
<p>— Bota tempo nisso.</p>
<p>Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como <em>jabs</em> verbais.</p>
<p>— Como cê tem passado?</p>
<p>— Bem, bem.</p>
<p>— Parece mentira.</p>
<p>— Puxa.</p>
<p>(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)</p>
<p>Ele esta falando:</p>
<p>—Pensei que você não fosse me reconhecer...</p>
<p>—O que é isso?!</p>
<p>—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.</p>
<p>—E eu ia esquecer de você? Logo você?</p>
<p>—As pessoas mudam. Sei lá.</p>
<p>— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)</p>
<p>— É incrível como a gente perde contato.</p>
<p>— É mesmo.</p>
<p>Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.</p>
<p>— Cê tem visto alguém da velha turma?</p>
<p>— Só o Pontes.</p>
<p>— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)</p>
<p>— Lembra do Croarê?</p>
<p>— Claro!</p>
<p>— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.</p>
<p>— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)</p>
<p>— Rezende...</p>
<p>— Quem?</p>
<p>Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.</p>
<p>— Não tinha um Rezende na turma?</p>
<p>— Não me lembro.</p>
<p>— Devo esta confundindo.</p>
<p>Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.</p>
<p>Ele fala:</p>
<p>— Sabe que a Ritinha casou?</p>
<p>— Não!</p>
<p>— Casou.</p>
<p>— Com quem?</p>
<p>— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)</p>
<p>— Claro que conheci! Velho Bituca...</p>
<p>— Pois casaram.</p>
<p>É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.</p>
<p>— E não avisou nada?</p>
<p>— Bem...</p>
<p>— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?</p>
<p>— É que a gente perdeu contato e...</p>
<p>— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.</p>
<p>— É...</p>
<p>— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.</p>
<p>— Desculpe, Edgar. É que...</p>
<p>— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)</p>
<p>— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?</p>
<p>— Certo, Edgar. E desculpe, hein?</p>
<p>— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.</p>
<p>— Isso.</p>
<p>— Reunir a velha turma.</p>
<p>— Certo.</p>
<p>— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...</p>
<p>— Bituca.</p>
<p>— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?</p>
<p>— Tchau, Edgar!</p>
<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.</p>
<p></span></span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><br />
<em><span style="color:#888888;">Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 13.</span></em></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Analista de Bagé]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=596</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:56:55 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=596</guid>
<description><![CDATA[Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.</p>
<p>Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.<br />
<!--more--><br />
— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.</p>
<p>— O senhor quer que eu deite logo no divã?</p>
<p>— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.</p>
<p>— Certo, certo. Eu...</p>
<p>— Aceita um mate?</p>
<p>— Um quê? Ah, não. Obrigado.</p>
<p>— Pos desembucha.</p>
<p>— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?</p>
<p>— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.</p>
<p>— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe</p>
<p>— Outro.</p>
<p>— Outro?</p>
<p>— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.</p>
<p>— E o senhor acha...</p>
<p>— Eu acho uma pôca vergonha.</p>
<p>— Mas...</p>
<p>— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!</span></p>
<p align="center"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">~//~</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.</p>
<p>— Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira... Mas acabou concordando.</p>
<p>— Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?</p>
<p>— Bem — disse o home — é que nós tivemos um desentendimento...</p>
<p>— Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?</p>
<p>— Eu não meti a espora. Não é, meu bem?</p>
<p>— Não fala comigo!</p>
<p>— Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.</p>
<p>— Ela tem um problema de carência afetiva...</p>
<p>— Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.</p>
<p>— Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...</p>
<p>— Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?</p>
<p>— Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?</p>
<p>— Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?</p>
<p>— O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.</p>
<p>— Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.</p>
<p>— Eu?</p>
<p>— Ela. Tu espera na salinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><br />
<em><span style="color:#888888;">Texto extraído do livro "O gigolô das palavras", L&#38;PM Editores – Porto Alegre, 1982, pág. 78.</span></em></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Moralistas]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=595</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:52:51 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=595</guid>
<description><![CDATA[— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?
— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrá]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?</p>
<p>— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás.</p>
<p>— Olhe lá, hein, rapaz...</p>
<p>Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos. Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel. A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo. Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.</p>
<p>— Pense um pouco mais, Paulo. Reflita. Essas decisões súbitas...<br />
<!--more--><br />
— Mas que súbitas? Estamos praticamente separados há um ano!</p>
<p>— Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.</p>
<p>— A Margarida é uma ótima mulher.</p>
<p>— Espera um pouquinho. Você mesmo deixou de freqüentar nossa casa por causa da Margarida. Depois que ela chamou vocês de bêbados e expulsou todo mundo.</p>
<p>— E fez muito bem. Nós estávamos bêbados e tínhamos que ser expulsos.</p>
<p>— Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá.</p>
<p>— Eu não entendo mais nada. Você sempre defendeu o divórcio!</p>
<p>— É. Mas quando acontece com um amigo...</p>
<p>— Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas acho a família uma coisa importantíssima. Acho que a família merece qualquer sacrifício.</p>
<p>— Pense nas crianças, Paulo. No trauma.</p>
<p>— Mas nós não temos filhos!</p>
<p>— Nos filhos dos outros, então. No mau exemplo.</p>
<p>— Mas isto é um absurdo! Vocês estão falando como se fosse o fim do mundo. Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não vai mudar nada.</p>
<p>— Como, não muda nada?</p>
<p>— Muda tudo!</p>
<p>— Você não sabe o que está dizendo, Paulo! Muda tudo.</p>
<p>— Muda o quê?</p>
<p>— Bom, pra começar, você não vai poder mais freqüentar as nossas casas.</p>
<p>— As mulheres não vão tolerar.</p>
<p>— Você se transformará num pária social, Paulo.</p>
<p>— O quê?!</p>
<p>— Fora de brincadeira. Um reprobo.</p>
<p>— Puxa. Eu nunca pensei que vocês...</p>
<p>— Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.</p>
<p>— Deixe pra decidir depois. Passado o verão.</p>
<p>— Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima. Deixe para mais tarde.</p>
<p>— Está bem. Se vocês insistem...</p>
<p>Na saída, os três amigos conversam:</p>
<p>— Será que ele se convenceu?</p>
<p>— Acho que sim. Pelo menos vai adiar.</p>
<p>— E no solteiros contra casados da praia, este ano, ainda teremos ele no gol.</p>
<p>— Também, a idéia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora. Quando não dava mais para arranjar substituto.</p>
<p>— Os casados nunca terão um goleiro como ele.</p>
<p>— Se insistirmos bastante, ele desiste definitivamente do divórcio.</p>
<p>— Vai agüentar a Margarida pelo resto da vida.</p>
<p>— Pelo time dos casados, qualquer sacrifício serve.</p>
<p>— Me diz uma coisa. Como divorciado, ele podia jogar no time dos solteiros?</p>
<p>— Podia.</p>
<p>— Impensável.</p>
<p>— É.</p>
<p>— Outra coisa.</p>
<p>— O quê?</p>
<p>— Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".</p>
<p>— Mas funcionou, não funcionou?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><br />
<span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41</span></em></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Homem que é homem]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=594</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:50:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=594</guid>
<description><![CDATA[Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem n]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.<br />
<!--more--><br />
HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.</p>
<p>HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.</p>
<p>E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do <em>Manix</em> em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.</span></p>
<p align="center"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">*</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!</p>
<p>Situação 1</p>
<p>Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao <em>maître</em>. Você tem certeza que o <em>maître</em> está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O <em>maître</em> levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o <em>maître</em> e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!</p>
<p>Situação 2</p>
<p>Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.</p>
<p>Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.</p>
<p>Situação 3</p>
<p>Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:</p>
<p>— Se quiser usar o meu...</p>
<p>— O seu...?</p>
<p>— Joelho.</p>
<p>— Ah...</p>
<p>— Ele está desocupado.</p>
<p>— Mas eu não o conheço.</p>
<p>— Eu apresento. Este é o meu joelho.</p>
<p>— Não. Eu digo, você...</p>
<p>— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.</p>
<p>Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.</p>
<p>Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.</span></p>
<p align="center"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">*</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.</p>
<p>HQEH nunca vai a vernissage.</p>
<p>HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.</p>
<p>HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.</p>
<p>Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.</p>
<p>Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".</p>
<p>Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".</p>
<p>Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.</p>
<p>HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.</p>
<p>Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><br />
<em><span style="color:#888888;">Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam, Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 89.</span><br />
</em></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Aliança]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=593</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:42:19 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, man]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o <em>apartheid</em>, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.</p>
<p>Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.<br />
<!--more--><br />
— Você não sabe o que me aconteceu! </p>
<p>— O quê?</p>
<p>— Uma coisa incrível. </p>
<p>— O quê?</p>
<p>— Contando ninguém acredita. </p>
<p>— Conta!</p>
<p>— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?</p>
<p>— Não. </p>
<p>— Olhe.</p>
<p>E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.<br />
 <br />
— O que aconteceu?</p>
<p>E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.</p>
<p>— Que coisa - diria a mulher, calmamente.</p>
<p>— Não é difícil de acreditar?</p>
<p>— Não. É perfeitamente possível. </p>
<p>— Pois é. Eu...</p>
<p>— SEU CRETINO!</p>
<p>— Meu bem...</p>
<p>— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.</p>
<p>— Mas, meu bem...</p>
<p>— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!</p>
<p>E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:</p>
<p>— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:</p>
<p>— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.</p>
<p>Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.</p>
<p>— O mais importante é que você não mentiu pra mim. </p>
<p>E foi tratar do jantar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><br />
<span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Texto extraído do livro "</span></em><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">As mentiras que os homens contam<em>", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág</em>. 37.</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Recital]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=592</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:41:26 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Uma boa maneira de começar um conto é imaginar uma situação rigidamente formal — digamos, um r]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Uma boa maneira de começar um conto é imaginar uma situação rigidamente formal — digamos, um recital de quarteto de cordas — e depois começar a desfiá-la, como um pulôver velho. Então vejamos. Um recital de quarteto de cordas.</p>
<p>O quarteto entra no palco sob educados aplausos da seleta platéia. São três homens e uma mulher.  A mulher, que é jovem e bonita, toca viola. Veste um longo vestido preto. Os três homens estão de fraque.  Tomam os seus lugares atrás das partituras. Da esquerda para a direita: um violino, outro violino, a viola e o violoncelo. Deixa ver se não esqueci nenhum detalhe. O violoncelista tem um grande bigode ruivo. Isto pode se revelar importante mais tarde, no conto. Ou não. </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;"><!--more--></p>
<p>Os quatro afinam seus instrumentos. Depois, silêncio. Aquela expectativa nervosa que precede o início de qualquer concerto. As últimas tossidas da platéia. O primeiro violinista consulta seus pares com um olhar discreto. Estão todos prontos, o violinista coloca o instrumento sob o queixo e posiciona seu arco. Vai começar o recital. Nisso...</p>
<p>Nisso, o quê? Qual a coisa mais insólita que pode acontecer num recital de um quarteto de cordas? Passar uma manada de zebus pelo palco, por trás deles? Não. Uma manada de zebus passa, parte da platéia pula das suas poltronas e procura as saídas em pânico, outra parte fica paralisada e perplexa, mas depois tudo volta ao normal. O quarteto, que manteve-se firme em seu lugar até o último zebu — são profissionais e, mesmo, aquilo não pode estar acontecendo — começa a tocar. Nenhuma explicação é pedida ou oferecida. Segue o Mozart.</p>
<p>Não. É preciso instalar-se no acontecimento, como a semente da confusão, uma pequena incongruência.  Algo que crie apenas um mal-estar, de início e chegue lentamente, em etapas sucessivas, ao caos. Um morcego que posa na cabeça do segundo violinista durante um pizzicato. Não. Melhor ainda. Entra no palco um homem carregando uma tuba.</p>
<p>Há um murmúrio na platéia. O que é aquilo? O homem entra, com sua tuba, dos bastidores. Posta-se ao lado do violoncelista. O primeiro violinista, retesado como um mergulhador que subitamente descobriu que não tem água na piscina, olha para a tuba entre fascinado e horrorizado. O que é aquilo? Depois de alguns instantes em que a tensão no ar é como a corda de um violino esticada ao máximo, o primeiro violinista fala:</p>
<p>— Por favor...</p>
<p>— O quê? — diz o homem da tuba, já na defensiva. — Vai dizer que eu não posso ficar aqui?</p>
<p>— O que o senhor quer?</p>
<p>— Quero tocar, ora. Podem começar que eu acompanho.</p>
<p>Alguns risos na platéia. Ruídos de impaciência. Ninguém nota que o violoncelista olhou para trás e quando deu com o tocador de tuba virou o rosto em seguida, como se quisesse se esconder. O primeiro violinista continua:</p>
<p>— Retire-se, por favor.</p>
<p>— Por quê? Quero tocar também.</p>
<p>O primeiro violinista olha nervosamente para a platéia. Nunca em toda a sua carreira como líder do quarteto teve que enfrentar algo parecido. Uma vez um mosquito entrou na sua narina durante uma passagem de Vivaldi.   Mas nunca uma tuba.</p>
<p>— Por favor. Isto é um recital para quarteto de cordas. Vamos tocar Mozart.  Não tem nenhuma parte para a tuba.</p>
<p>— Eu improviso alguma coisa. Vocês começam e eu faço o <em>um-pá-pá</em>.</p>
<p>Mais risos na platéia. Expressões de escândalo. De onde surgiu aquele homem com uma tuba? Ele nem está de fraque. Segundo algumas versões veste uma camisa do Vasco. Usa chinelos de dedo. A violista sente-se mal.   O violinista ameaça chamar alguém dos bastidores para retirar o tocador de tuba a força. Mas ele aproxima o bocal do seu instrumento dos lábios e ameaça:</p>
<p>— Se alguém se aproximar de mim eu toco <em>pof</em>!</p>
<p>A perspectiva de se ouvir um <em>pof</em> naquele recinto paralisa a todos.</p>
<p>— Está bem — diz o primeiro violinista. — Vamos conversar.  Você, obviamente, entrou no lugar errado.   Isto é um recital de cordas. Estamos nos preparando para tocar Mozart. Mozart não tem <em>um-pá-pá</em>.</p>
<p>— Mozart não sabe o que está perdendo — diz o tocador de tuba, rindo para a platéia e tentando conquistar a sua simpatia.</p>
<p>Não consegue. O ambiente é hostil. O tocador de tuba muda de tom. Torna-se ameaçador:</p>
<p>—  Está bem, seus elitistas. Acabou. Onde é que vocês pensam que estão, no século XVIII? Já houve 17 revoluções populares depois de Mozart. Vou confiscar estas partituras em nome do povo. Vocês todos serão interrogados. Um a um, pá-pá.</p>
<p>Torna-se suplicante:</p>
<p>— Por favor, só o que eu quero é tocar um pouco também. Eu sou humilde. Não pude estudar instrumento de cordas. Eu mesmo fiz esta tuba, de um Volkswagen velho. Deixa...</p>
<p>Num tom sedutor, para a violista:</p>
<p>— Eu represento os seus sonhos secretos. Sou um produto da sua imaginação lúbrica, confessa. Durante o Mozart, neste quarteto anti-séptico, é em mim que você pensa. Na minha barriga e na minha tuba fálica. Você quer ser violada por mim num <em>alegro assai</em>, confessa...</p>
<p>Finalmente, desafiador, para o violoncelista:</p>
<p>— Esse bigode ruivo. Estou reconhecendo. É o mesmo bigode que eu usava em 1968. Devolve!</p>
<p>O tocador de tuba e o violoncelista atracam-se. Os outros membros do quarteto entram na briga. A platéia agora grita e pula. É o caos! Simbolizando, talvez, a falência final de todo o sistema de valores que teve início com o iluminismo europeu ou o triunfo do instinto sobre a razão ou ainda, uma pane mental do autor. Sobre o palco, um dos resultados da briga é que agora quem está com o bigode ruivo é a violista. Vendo-a assim, o tocador de tuba pára de morder a perna do segundo violinista, abre os braços e grita: "Mamãe!"</p>
<p>Nisso, entra no palco uma manada de zebus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><br />
<span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Crônica extraída  do livro "O Analista de Bagé", L &#38; PM Editores Ltda - Porto Alegre, 1981, pág. 58.<br />
</span></em></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Apito]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=591</link>
<pubDate>Sat, 24 May 2008 20:29:48 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Tudo o que o Mafra dizia, o Dubin duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Porque o Mafra ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Tudo o que o Mafra dizia, o Dubin duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Porque o Mafra contava histórias fantásticas e o Dubin sempre fazia aquela cara de conta outra.</p>
<p>— Uma vez...</p>
<p>— Lá vem história.</p>
<p>— Eu nem comecei e você já está duvidando?</p>
<p>— Duvidando, não. Não acredito mesmo.</p>
<p>— Mas eu nem contei ainda!</p>
<p>— Então conta.</p>
<p>— Uma vez eu fui a um baile só de pernetas e...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;"><!--more--></p>
<p>— Eu não disse? Eu não disse?</p>
<p>O Mafra às vezes fazia questão de provar as suas histórias para o Dubin.</p>
<p>— Dubin, eu sou ou não sou pai-de-santo honorário?</p>
<p>O Dubin relutava, mas confirmava.</p>
<p>— É.</p>
<p>Mas em seguida arrematava:</p>
<p>— Também, aquele terreiro está aceitando até turista argentino...</p>
<p>Então veio o caso do apito. Um dia, numa roda, assim no mais , o Mafra revelou:</p>
<p>— Tenho um apito de chamar mulher.</p>
<p>— O quê?</p>
<p>— Um apito de chamar mulher.</p>
<p>Ninguém acreditou. O Dubin chegou a bater com a cabeça na mesa, gemendo:</p>
<p>— Ai meu Deus! Ai meu Deus!</p>
<p>— Não quer acreditar, não acredita. Mas tenho.</p>
<p>— Então mostra.</p>
<p>— Não está aqui. E aqui não precisa apito. É só dizer "vem cá".</p>
<p>O Dubin gesticulava para o céu, apelando por justiça.</p>
<p>— Um apito de chamar mulher! Só faltava essa!</p>
<p>Mas aconteceu o seguinte: Mafra e Dubin foram juntos numa viagem (Mafra queria provar ao Dubin que tinha mesmo terras na Amazônia, uma ilha que mudava de lugar conforme as cheias) e o avião caiu em plena selva. Ninguém se pisou, todos sobreviveram e depois de uma semana a frutas e água foram salvos pela FAB. Na volta, cercados pelos amigos, Mafra e Dubin contaram sua aventura. E Mafra, triunfante, pediu para Dubin:</p>
<p>— Agora conta do meu apito.</p>
<p>— Conta você — disse Dubin, contrafeito.</p>
<p>— O apito existia ou não existia?</p>
<p>— Existia.</p>
<p>— Conta, conta — pediram os outros.</p>
<p>— Foi no quarto ou quinto dia. Já sabíamos que ninguém morreria. A FAB já tinha nos localizado. O salvamento era só uma questão de tempo. Então, naquela descontração geral, tirei o meu apito do bolso.</p>
<p>— O tal de chamar mulher?</p>
<p>— Exato. Estou mentindo, Dubinzinho?</p>
<p>— Não — murmurou Dubinzinho.</p>
<p>— Soprei o apito e pimba.</p>
<p>— Apareceram mulheres?</p>
<p>— Coisa de dez minutos. Três mulheres.</p>
<p>Todos se viraram para o Dubin incrédulos.</p>
<p>— É verdade?</p>
<p>— É — concedeu Dubin.</p>
<p>Fez-se um silêncio de puro espanto. No fim do qual Dubin falou outra vez:</p>
<p>— Mas também, era cada bucho!</span></p>
<p style="text-align:justify;">
<em><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">A crônica acima foi extraída do livro "Outras do analista de Bagé", L &#38; PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.<br />
</span></em></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Clic]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=575</link>
<pubDate>Fri, 23 May 2008 22:11:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=575</guid>
<description><![CDATA[Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size:small;font-family:Times New Roman;"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.</span></span></div>
<p><span style="font-size:small;font-family:Times New Roman;"><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">— Aloa.</p>
<p>— Quem fala?</p>
<p>— Com quem quer falar?</p>
<p>— O dono desse telefone.</p>
<p>— Ele não pode atender.</p>
<p><!--more--></p>
<p><font face="Times New Roman" size="3"><font face="Verdana" size="2" color="#888888">— Quer chamá-lo, por favor?</p>
<p>— Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado?</p>
<p>— Bate na porta e chama esse vagabundo agora.</p>
<p>Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.</p>
<p>— Aloa.</p>
<p>— Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.</p>
<p>— Ele já vai sair do banheiro.</p>
<p>— Você é a...</p>
<p>— Uma amiga.</p>
<p>— Como é seu nome?</p>
<p>— Quem quer saber?</p>
<p>O cidadão inventou um nome.</p>
<p>— Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.</p>
<p>— Primo do Amleto?</p>
<p>Amleto. O safado já tinha um nome.</p>
<p>— É. De Quaraí.</p>
<p>— Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.</p>
<p>— Pois é.</p>
<p>— Carol.</p>
<p>— Hein?</p>
<p>— Meu nome. É Carol.</p>
<p>— Ah. Vocês são...</p>
<p>— Não, não. Nos conhecemos há pouco.</p>
<p>— Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.</p>
<p>— Eu também não sei o endereço dele.</p>
<p>— Mas vocês...</p>
<p>— Nós estamos num motel. Este telefone é celular.</p>
<p>— Ah.</p>
<p>— Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.</p>
<p>— Ele disse que comprou?</p>
<p>— Por que?</p>
<p>O cidadão não se conteve.</p>
<p>— Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!</p>
<p>— Não acredito.</p>
<p>— Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.</p>
<p>— O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.</p>
<p>E Carol desligou de novo.</p>
<p>O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.</p>
<p>— Aloa.</p>
<p>— Carol, é o Tobias.</p>
<p>— Quem?</p>
<p>— O Taborda. Por favor, chame o Amleto.</p>
<p>— Ele continua no banheiro.</p>
<p>— Em que motel vocês estão?</p>
<p>— Por que?</p>
<p>— Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...</p>
<p>— Recém nos conhecemos.</p>
<p>— Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode Ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?</p>
<p>— Esta é a primeira vez.</p>
<p>— Vocês nunca tinham se visto antes?</p>
<p>— Já, já. Mas, assim, só conversa.</p>
<p>— E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele. Não sabia que ele é de Quaraí.</p>
<p>— Pensei que fosse goiano.</p>
<p>— Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...</p>
<p>— Não, não. Eu é que pensei.</p>
<p>— Carol, ele ainda está no banheiro?</p>
<p>— Está.</p>
<p>— Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!</p>
<p>— Mas...</p>
<p>— Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.</p>
<p>— Ele esta saindo do banheiro.</p>
<p>— Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde você está.</p>
<p>Clic.</p>
<p>Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.</p>
<p>— Aloa.</p>
<p>— Carol, onde você está?</p>
<p>— O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.</p>
<p>— Carol, eu...</p>
<p>— Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso.</p>
<p>O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:</p>
<p>— Como ele vai devolver o telefone?</p>
<p>— Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.</p>
<p>— Carol, não...</p>
<p>Mas Carol já tinha desligado.</p>
<p>O cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra vez.</p>
<p>—Aloa.</p>
<p>Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.</p>
<p>— Carol, é o Torquatro.</p>
<p>— Quem?</p>
<p>— Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone que você tem na mão, esta me entendendo? Esse telefone que agora tem suas impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular!</p>
<p>— Mas ele disse que vai devolver na...</p>
<p>— Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol.</p>
<p>— Então você também mentiu!</p>
<p>— Carol...</p>
<p>Clic.</p>
<p>Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.</p>
<p>— Amleto?</p>
<p>— Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.</p>
<p>— Olha aqui, seu...</p>
<p>— Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?</p>
<p>— Só quero meu telefone.</p>
<p>— Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?</p>
<p>— Quero meu celular de volta!</p>
<p>— Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...</p>
<p>— Ladrão</p>
<p>— Executivo</p>
<p>— Devolve meu...</p>
<p>Clic.</p>
<p>Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.</p>
<p>— Ahn?</p>
<p>— Quem fala?</p>
<p>— É o Trola.</p>
<p>— Como você conseguiu esse telefone?</p>
<p>— Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.</p>
<p>— Onde você está?</p>
<p>— Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.</p>
<p>— Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me diga onde você está que eu vou buscar.</p>
<p>— Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...</p>
<p>— Onde você está? Eu quero saber onde!</p>
<p>— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha. Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...</p>
<p></font></p>
<p align="justify"><em><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.<br />
</span></em></p>
<p> </p>
<p></font></span><font face="Times New Roman" size="3"></p>
<p align="justify"><em><span style="font-size:x-small;color:#888888;font-family:Verdana;">Extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.<br />
</span></em></p>
<p> </p>
<p></font></span></p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Autoridade]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=526</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:47:57 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Quando pegou a Evinha descascando uma banana, o pai decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Quando pegou a Evinha descascando uma banana, o pai decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros</p>
<p>Os filhos nunca acreditam que crescer é perigoso. Não adianta avisar para continuarem crianças. Eles crescem e vão embora. E depois se queixam.<!--more--></p>
<p>***</p>
<p>Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos do barro, Adão e Eva. Naquele tempo não precisava mãe. O pai fez o que pôde pelas crianças. Elas tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro ou um macaco para brincar, o pai fazia. Se queriam uma pizza, o pai criava, ou mandava buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que não precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram felizes porque não sabiam.</p>
<p>***</p>
<p>O Adão ainda era acomodado, mas a Evinha... Um dia o pai a pegou descascando uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da menina descobriu, e antes que ele pudesse dizer "Dessa fruta não co..." ela já tinha comido. E gostado. Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros, e determinar que frutas do quintal podiam e não podiam ser comidas, e escolheu uma fruta como a mais proibida de todas, pois se comesse dela a menina saberia. Saberia o quê? O pai não especificou. Só disse que o que saberia seria terrível, e que depois não se queixasse.</p>
<p>*** </span></p>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">E Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber, e que nunca mais seria a mesma.</p>
<p>- O que eu sei de tão terrível que não sabia antes? - perguntou Eva, ainda mastigando a fruta proibida.</p>
<p>- Que você pode desobedecer. Que você pode escolher, e pensar com sua própria cabeça, e me desafiar.</p>
<p>E então o pai disse a frase mais triste que um pai pode dizer a um filho:</p>
<p>- Que você não é mais uma criança.</p>
<p>***</p>
<p>E Eva cresceu diante dos olhos do pai, e no momento seguinte já estava dizendo que queria morar sozinha, e fazer bolsa de inglês em Nova York e saber como era o mundo lá fora. E o pai suspirou e disse que ela podia ir, e que levasse o palerma do Adão com ela. E que os dois jamais voltassem e pedissem a sua ignorância de volta.</p>
<p>***</p>
<p>Quando contou esta história a outro pai, no clube, o pai abandonado ouviu do outro que sua história não era nada.</p>
<p>- Pior aconteceu comigo e com o meu Prometeu. Ele era um ótimo filho. E como me admirava e respeitava! Para ele era eu no céu e eu na terra também. Ele tinha tudo em casa, e eu o protegia com o meu poder. Ele também era feliz e não sabia, ou era feliz porque não sabia. E não é que um dia descobri que ele tinha roubado o meu fogo para dar aos amigos? Logo o fogo, o símbolo do meu poder e da minha autoridade, distribuído entre outras crianças ingratas como cigarros roubados.</p>
<p>- Você o expulsou de casa, como eu?</p>
<p>- Não, amarrei numa pedra, para os abutres comerem o seu fígado. Eu sou da escola antiga.</p>
<p>- Tem que dar o exemplo...</p>
<p>- Tem que dar o exemplo. Senão, não demora, estarão todos os filhos achando que sabem mais do que nós, e roubando o nosso poder.</p>
<p>- E depois, quando não dá certo, se queixando.</p>
<p>- Exato.</span></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Na Cara]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=525</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:44:34 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Gosto muito (tanto que a cito muito) daquela cena de um filme dos irmãos Marx em que o Groucho, um ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Gosto muito (tanto que a cito muito) daquela cena de um filme dos irmãos Marx em que o Groucho, um general, postando-se à frente de um mapa para explicá-lo aos seus comandados, diz:</p>
<p>— Uma criança de três anos entenderia isto.</p>
<p>E depois de algum tempo examinando o mapa:</p>
<p>— Tragam uma criança de três anos!</p>
<p>Uma criança de três anos teria dito ao Bush que a intervenção no Iraque levaria a uma guerra aberta entre facções religiosas e etnias que sempre se desentenderam no país. Bush ouviu seus ideólogos neoconservadores. Não aconteceu o que eles previram. Aconteceu o que uma criança de três anos diria que estava na cara.</p>
<p>A criança de três anos não representa apenas o óbvio, ou o senso comum. Representa um olhar inocente, no sentido de ser livre de idéias feitas, ilusões e vícios de pensamento. Não é fácil pensar como a proverbial criança de três anos — há o risco de se confundir simplismo com sabedoria. Mas é sempre saudável pensar em assuntos complexos — ou em outras áreas de conflito além do Iraque, como, por exemplo, a política brasileira — tentando separar o que é preconceito e vontade do que está na cara.</p>
<p>Pergunte-se sempre como a criança de três anos do Groucho entenderia as várias barafundas atuais e o que realmente está acontecendo.</p>
<p>Ou, pelo menos, como o Groucho, mande chamá-la.</p>
<p></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[De Regatas]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=524</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:42:49 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Já procurei, mas ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a origem da palavra “sa]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Já procurei, mas ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a origem da palavra “sacanagem”. Como tem um som algo francês, e como os franceses têm uma palavra para tudo, especula-se que seja um galicismo adaptado. Viria de “sac a nager”, bolsas de ar que ajudavam os franceses arcaicos a boiar e que por alguma razão acabou adquirindo o significado de sacanagem como a conhecemos hoje. Talvez devido à prática de furar os sacos para afundar os franceses. Pode-se imaginar os franceses se debatendo na água e gritando:</p>
<p>— Mon sac a nager! Mon sac a nager!</p>
<p>E os ingleses na margem como se não fosse com eles.<br />
<!--more--></p>
<p>***</p>
<p>Certas palavras são perfeitas. Existe outra palavra melhor para descrever uma coisa esdrúxula do que “esdrúxula”? A própria palavra é esdrúxula. E no entanto “esdrúxula” já quis dizer “proparoxítona”. O que, pensando bem, é o mais esdrúxulo de tudo. Outra palavra ótima é “enfadonho” para descrever alguém. Tem o mesmo sentido de aborrecido, cansativo, chato, mas não é a mesma coisa. Não corresponde nem ao seu sentido literal, aquilo ou aquele que dá enfado. Pense nas pessoas enfadonhas que você conhece. Nenhum outro adjetivo a descreveria, certo? O enfadonho não enfada, apenas. Tem algo de denso e confuso e irrecuperável. Deveria existir o verbo “enfadonhar”. Como em “Não me enfadonhe!” Porque, além de tudo, a enfadonhice é contagiosa. </span></p>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Outro exemplo de como as palavras ganham significados que não tinham, e o som vale mais que o sentido. Louco por futebol, eu acompanhava pelo rádio e pelos jornais (não existia TV) o futebol de Buenos Aires, a grande cidade que ficava mais perto de Porto Alegre. Um dia a turma da zona decidiu que nosso futebol de terreno baldio e calçada merecia uma promoção formal e nosso time merecia um nome. A sugestão vencedora foi a minha: Racing. Não era o meu time em Buenos Aires — por alguma razão, torcia pelo River Plate — mas o nome soava bem. Lembrava “raça”, nada mais argentino. Só muito depois me dei conta que “racing” era inglês, um dos tantos vestígios que os ingleses deixaram na língua e na alma dos argentinos. Mas na época nossa intenção era sermos argentinos. Depois do nome passamos a pensar nas cores que consagraríamos. Um assunto delicado, já que nem o vermelho nem o azul poderiam predominar e ameaçar o nosso ecumenismo gre-nal. Solução: vermelho e azul, em listas de espessura rigorosamente igual. Mas nada disso — nome, camiseta, hino, consagração — passou da fase do papo. O valoroso “Racing” nunca foi mais do que um sonho. E de um esboço de escudo, que eu mesmo fiz e encontrei anos mais tarde entre outros papéis guardados por nenhuma razão. Levei algum tempo para decifrar as letras no escudo escrupulosamente dividido entre o vermelho e o azul. RFR. Por que RFR? E então me lembrei. Alguém tinha sugerido “Racing de Futebol e Regatas”. Ninguém se lembrou de perguntar onde e como praticaríamos regatas no nosso bairro, que não tinha nem um açude. Era influência do Rio, onde os times de futebol também eram de regatas. O nome completo foi aceito por aclamação. Porque pouco importava se não tínhamos como cumprir o que dizia o escudo. Ser “de regatas” nos dava uma dimensão especial, além de argentinos imaginários éramos também cariocas no nome. Não era preciso ter barco e remos ou sequer chegar perto do Guaíba para ser “de regata”. “Regata” no caso nem era uma palavra. Era um símbolo hierárquico. Sinal de que não éramos pouca coisa. </span></div>
<p> </p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Esportes]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=523</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:38:34 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Quase todos os esportes tiveram sua origem em algum tipo de brincadeira de infância, mesmo que a ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Quase todos os esportes tiveram sua origem em algum tipo de brincadeira de infância, mesmo que a "infância", no caso, fosse a da humanidade.***</p>
<p>Você pode identificar o provável começo de todas as modalidades olímpicas nas coisas que gostava de fazer quando garoto - como arremesso de pedras contra vidraça de vizinho e corrida de fundo para fugir do vizinho - ou então na História: o salto com vara, por exemplo, certamente começou no sítio a cidades fortificadas, depois de decidirem que atirar javalins, martelos e discos por cima do muro não estava dando resultado.</p>
<p>***<!--more--></p>
<p><font color="#888888"></p>
<p style="text-align:justify;">O futebol começou na pré-história, na primeira vez que um pré-brasileiro fez embaixada com o crânio de um inimigo.</p>
<p>***</p>
<p>Os homens das cavernas praticavam uma forma primitiva de rúgbi - igual ao que é hoje, mas sem sunga -, e nos tempos bíblicos já existiam raquetes de tênis com as quais as pessoas se golpeavam alternadamente, até alguém ter a idéia da bola e da rede.</p>
<p>***</p>
<p>Num pátio de escola do Oriente, há milhares de anos, um aluno desarrumou o quimono de outro. O outro, em retaliação, desarrumou o quimono do primeiro e quando viram estavam os dois rolando pelo chão, sem largar os quimonos. Depois acrescentaram a filosofia e chamaram de "Jiu-Jitsu".</p>
<p>***</p>
<p>O pólo a cavalo foi uma invenção dos mongóis, mas na época não usavam bola e era chamado "invadir o Ocidente".</p>
<p>***</p>
<p>O pólo aquático é derivado do esporte mongol e também começou há muitos anos, mas só recentemente decidiram eliminar os cavalos, que sujavam muito as piscinas.</p>
<p>***</p>
<p><span style="color:#888888;">O "cricket", na sua origem, era um substituto para a sesta entre jovens aristocratas ingleses, uma forma de dormirem e se exercitarem ao mesmo tempo.</p>
<p></span></p>
<p></font></span></p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p> </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">***Se muitos esportes começaram como divertimentos infantis, é surpreendente que outros esportes não tenham se desenvolvido a partir de jogos de criança. Poderiam existir campeonatos internacionais de bola de gude, por exemplo, ou de cuspe a distância, entre adultos. Por que não equipes de cuspe a distância desfilando orgulhosamente nas delegações olímpicas? É uma forma de competição que exige habilidade incomum e noções de física e balística, além de facilitar o exame anti-doping imediato.</p>
<p>***</p>
<p>Se o ciclismo hoje movimenta multidões e fortunas e cria celebridades na Europa, por que não poderia acontecer o mesmo com bater figurinha?</p>
<p>***</p>
<p>E sempre achei que o mundo seria outro se a briga de travesseiro tivesse sido regulamentada e hoje fosse um esporte como o boxe, disputado por atletas em diversas categorias - almofadas, almofadões, travesseiros de penas ou de espuma, etc. As brigas poderiam ser simples, de duplas ou entre equipes masculinas e/ou femininas e realizadas dentro de convenções internacionais, com regras padronizadas para evitar o sufocamento, ou travesseiros com peso escondido, ou fronhas fora das especificações oficiais. As multinacionais competiriam na fabricação de pijamas para competição. E, claro, travesseiros profissionais.</p>
<p>***</p>
<p><span style="color:#888888;">Pensamentos vagos de uma mente ociosa, esperando a Copa do Mundo.</p>
<p></span></span></p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Cinzas]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=522</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:35:57 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[No tempo em que ainda se escrevia crônicas de Carnaval (pequenas ficções sobre alegrias ilusória]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#888888;">No tempo em que ainda se escrevia crônicas de Carnaval (pequenas ficções sobre alegrias ilusórias e glórias passageiras, pseudo-ensaios sociológicos sobre essa peculiaridade nacional, sobre a criatividade popular ou a metafísica de um umbigo) a literatura da Quarta-feira de Cinzas era maior do que a dos outros dias. Quarta-feira de Cinzas era dia de ressaca e remorso, de fim de recreio e volta ao chão, e de todas as possibilidades dramáticas ou patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na sarjeta. Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-feira de Cinzas, a crônica de volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no portão, e não aceitando desculpas.<br />
<!--more--><br />
Tanto quanto o Carnaval, Quarta-feira de Cinzas era uma coisa muito brasileira. Como ninguém tinha um Carnaval parecido, ninguém tinha um pós-carnaval tão triste. Uma queda na vida real de tanta altura. Mas o curioso é que quanto maior e mais coisa inédita brasileira fica o Carnaval, mais o nosso pós-carnaval perde suas características - e seu valor literário. Hoje a figura típica do pós-carnaval não é mais o folião deixando sua fantasia no caminho na volta ao seu duro cotidiano, é o finlandês embarcando no avião e levando sua fantasia para mostrar em casa. E não tem mais Adalgisa esperando no portão. O marido que volta teve o mesmo destino de outros personagens clássicos: foi engolido pelo tempo e a irrelevância. Ele não sai mais de casa no sábado e só reaparece na quarta-feira vestindo um cuecão e dizendo que foi seqüestrado por sugadoras alienígenas, o que explica os chupões no pescoço. Isso é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.</p>
<p>Razão tem os baianos, que acabaram com o pós-carnaval. Lá chamam a Quarta-feira de Cinzas de "Começo do outro", e emendam. E como gênero literário as crônicas de Quarta-feira de Cinzas também perderam toda a legitimidade. Viraram anacrônicas. Como esta, que ainda por cima sai na quinta.</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Como se]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=521</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:32:59 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Sempre que via um pôr-do-sol bonito, sentia que não era para ela. Sempre que comia sorvete de doce]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;"><!--more-->Sempre que via um pôr-do-sol bonito, sentia que não era para ela. Sempre que comia sorvete de doce de leite era com a mesma sensação de clandestinidade<br />
<!--more--><br />
...como se fosse a sua casa na próxima Idade do Gelo, tudo congelado, tudo coberto com uma camada do que parecesse vidro, e você entrasse na casa mal podendo se equilibrar sobre o chão escorregadio, e tudo que você tocasse se desmanchasse como se fosse feito de açúcar, tudo, a poltrona do seu pai, as cortinas duras da sala de jantar, a cristaleira, e bastasse tocar em qualquer coisa com um dedo, as frutas artificiais sobre a mesa, as cadeiras em volta da mesa, e cairia em estilhaços - até a geladeira. E você entrasse no seu quarto atrás daquele livro do qual estivesse tentando se lembrar, o livro preferido da sua infância do qual tentasse se lembrar da cor e da capa e do título, e destruísse o quarto atrás do livro e quando o achasse ele também estivesse congelado e se desmanchasse, puf, entre seus dedos antes que você pudesse descobrir a cor, a capa e o título, e em seguida toda a casa ruísse ao seu redor com um ruído de gelo quebrando, e você ficasse de pé no meio de um alagado onde antes fora a memória da sua casa pensando pronto, agora não vou me lembrar de mais nada.<br />
*** </span></p>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Um fim de tarde ela falou que sempre que via um pôr-do-sol bonito como aquele sentia que não era para ela. Não sabia explicar. Era como se o pôr-do-sol fosse para outros e ela estivesse vendo clandestinamente, espiando o que não lhe dizia respeito. Se sentia, assim, uma penetra no espetáculo dos outros. Ele não entendeu.. </span></div>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Você acha que não merece, é isso? Que é bonito demais para você? Que você não tem direito a um pôr-do-sol dessa magnitude? Que o sol deveria se pôr com mais discrição para pessoas como você, que cada pôr-do-sol deveria ter uma versão condensada para os imerecedores da Terra, é isso? </span></div>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Não, não, disse ela. Eu mereço. Não é uma questão de humildade. É uma questão de... E deu outro exemplo. Sorvete de doce de leite. Sempre que comia sorvete de doce de leite era com a mesma sensação de clandestinidade. Aquilo, aquela doçura, aquele prazer, não podia estar assim disponível para todos como, como... como um pôr-do-sol! Era preciso haver uma hierarquia no direito às coisas magníficas, senão nenhuma escala de valores na vida tinha sentido. Ela lera em algum lugar que os fabricantes de sorvete de doce de leite tinham hesitado muito antes de lançar o produto no mercado. A preocupação deles era outra: temiam a corrupção irrecuperável da humanidade. Depois de provar sorvete de doce de leite as pessoas poderiam se ver fragilizadas, indefesas diante da auto-indulgência e da lubricidade, ou perdidas pela culpa. Tinham até pensado em vender o sorvete com um aviso, como os cigarros. "Pode causar dependência e ruína moral." Mas a preocupação dela era com a vulgarização do sorvete de doce de leite. Não defendia uma aristocracia com exclusividade sobre o bom e o bonito. Só achava que ver um pôr-do-sol fantástico comendo sorvete de doce de leite deveria ser, assim, como se você fosse um dos escolhidos e o seu crachá autorizasse. Ele quase perguntou como ela o colocaria na sua hierarquia de valores mas ela estava com o olhar perdido e ele achou melhor não. </span></div>
<p style="text-align:justify;"> </p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Na vida como no pôquer]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=520</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:25:25 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[“Ao nascer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar, como no pôquer”, disse Julião. ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">“Ao</span><span style="color:#888888;"> nascer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar, como no pôquer”, disse Julião. “Eu não recebi carta nenhuma quando nasci”, retrucou o Telmo, que mastigava seu charuto</p>
<p>"O pôquer é uma metáfora para a vida." A frase pairou no ar, junto com a fumaça. Eram cinco em volta da mesa. Dois fumavam charutos. O autor da frase esperou alguns minutos pela reação dos outros e, quando ela não veio, começou a repetir:</p>
<p>- O pôquer é uma metá...</p>
<p>- Está bem, Julião - disse um dos outros, com um suspiro - o pôquer é uma metáfora para a vida. Desenvolve, desenvolve. <!--more--><br />
O Julião tinha aquela mania. Sempre que era a sua vez de dar as cartas, começava a falar sem parar. Começava com a sua "maldita literatura", como dizia o Telmo. Tinha teorias sobre o pôquer. Ninguém tinha muita paciência com as teorias do Julião.</p>
<p>- Na vida, como no pôquer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar. Ao nascer.</p>
<p>- Eu não recebi carta nenhuma quando nasci - disse o Telmo, que mastigava seu charuto.</p>
<p>- Metaforicamente, Telmo.</p>
<p>- Ah.</p>
<p>- Cinco cartas, como no pôquer. Primeiro: nascemos num determinado lugar. No Brasil, e não na China, ou nos Estados Unidos. O que faria muita diferença. Certo?</p>
<p>- Certo, Julião.</p>
<p>- Segunda carta: nascemos de uma determinada cor. O que aconteceria se você tivesse nascido preto, Telmo?</p>
<p>- Minha mãe ia ter que se explicar?</p>
<p>- Não. Muitas coisas da sua vida já estariam preordenadas, só pelo fato de você nascer preto e não branco. Terceira carta: situação econômica. Você pode nascer numa família pobre, de classe média ou rica. Não depende de você, depende da carta que recebeu ao nascer. Certo? E isso também faz muita diferença.</p>
<p>- Certo.</p>
<p>- Certo</p>
<p>- Certo.</p>
<p>- Certo.</p>
<p>- Quarta carta: inteligência. Muita, pouca, média. Confere?</p>
<p>- Arrã.</p>
<p>- Tá.</p>
<p>- Confere.</p>
<p>- E a quinta carta? </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;"> Calma. Vamos examinar as cartas que já temos. Todas se referem a coisas reais, a fatos, a circunstâncias comprováveis. Lugar de nascimento, raça, classe, capacidade mental. O que é que falta? Falta o imponderável. O imensurável. A quinta carta que a vida nos dá.</p>
<p>- Qual é?</p>
<p>- A carta da sorte ou do azar.</p>
<p>***</p>
<p>O jogo não tinha parado. Os cinco estavam na rodada. Era hora de descartar as cartas indesejadas e pedir outras, e fazer as apostas. Mas a teoria do Julião também continuava sobre a mesa.</p>
<p>- A quinta carta é, no fim, a mais importante de todas. Ela pode contrabalançar todas as cartas ruins. Pode ser a decisiva para a pessoa vencer na vida.</p>
<p>- Sei não - disse o Telmo. - Alguém que nasce brasileiro, preto, pobre e burro vai precisar de muita sorte para vencer...</p>
<p>- Mas aí é que está - continuou o Julião, terminando de dar as cartas conforme o pedido de cada um, inclusive uma para ele mesmo. - Nisso também a vida é como o pôquer. Você não precisa ficar com as cartas que a vida lhe deu. Pode pedir outras cartas. Pode ir embora do Brasil. Pode derrotar o preconceito e ter sucesso mesmo não sendo branco. Pode sair da pobreza com seu esforço, mesmo não sendo inteligente. Pode se educar e deixar de ser burro. E pode descartar o azar e receber a sorte. Como eu tenho certeza que recebi a carta que faltava para fechar meu jogo e ganhar esta rodada. Há mil maneiras em que você pode vencer, mesmo tendo recebido cartas ruins...</p>
<p>Todos examinaram suas cartas. Julião sorriu ao examinar as suas e, quando chegou sua vez de apostar, apostou alto, para desencorajar os outros. Todos ficaram olhando para o Julião. A carta que ele precisava teria mesmo entrado? Julião continuou sorrindo. E completou a frase:</p>
<p>- Inclusive blefando.</p>
<p>- Maldita literatura - disse o Telmo, quase engolindo o charuto. </span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Esquemas]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=519</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:21:06 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Tudo o que ele queria era terminar a sexta-feira de uma semana pesada com um chope. Mas o Pepe apare]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Tudo o que ele queria era terminar a sexta-feira de uma semana pesada com um chope. Mas o Pepe apareceu e perguntou: “Você está sabendo do esquema do Izail?”</p>
<p>Só queria um chope antes de ir para casa. Sexta-feira de uma semana pesada. Calor. Cansaço. A última coisa que queria era conversa com o Pepe. Mas o Pepe veio sentar ao seu lado na mesa.<br />
<!--more--><br />
- E aí?</p>
<p>- Tudo certinho?</p>
<p>- Tudo.</p>
<p>Pronto. Não precisavam dizer mais nada. Estava tudo certinho. Não certo. Não o ideal. Mas certinho. Ele desejou que o Pepe tivesse o bom senso de aceitar aquilo. Que olhasse para a sua cara e visse um homem que não queria conversa. Que só queria terminar seu chope e ir para casa. Deixassem assim: tudo certinho. Mas o Pepe continuou.</p>
<p>- Você está sabendo do esquema do Izail?</p>
<p>Ele suspirou. Não estava sabendo do esquema do Izail. Mas mais do que isto: não queria saber do esquema do Izail. Respondeu:</p>
<p>- Estou.</p>
<p>O Pepe duvidou:</p>
<p>- Está mesmo?</p>
<p>Ele tomou o último gole do chope e, antes de se levantar, aproximou seu rosto do rosto do Pepe e disse:</p>
<p>- Eu não estou só sabendo do esquema do Izail. Eu estou no esquema do Izail.</p>
<p>E foi para casa.</p>
<p>*** </span></p>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Na segunda-feira quem sentou ao seu lado no bar foi o Serroto. Voz de conspiração.</p>
<p>- Ouvi dizer que você está no esquema do Izail.</p>
<p>- Quem foi que disse?</p>
<p>- Dizem por aí. É verdade?</p>
<p>- Talvez.</p>
<p>- E é quente?</p>
<p>Ele sorriu com a ingenuidade do outro. Respondeu:</p>
<p>- Pode ser.</p>
<p>- Mas e...</p>
<p>Ele levantou a mão para o outro parar. Não podia dizer mais nada. E queria terminar seu chope.</p>
<p>***</p>
<p>No dia seguinte, foi o Luz.</p>
<p>- Que história é essa do esquema do Izail?</p>
<p>- Não sei de nada.</p>
<p>- Mas andam dizendo que você...</p>
<p>- Não sei de nada.</p>
<p>- Já entendi. Você não quer falar. Mas acho isso muito estranho.</p>
<p>- Por quê?</p>
<p>- Porque eu estou no esquema do Izail e nunca soube que você também estava.</p>
<p>- Você está no esquema ou no esquemão?</p>
<p>- "Esquemão"?</p>
<p>- Você não sabe do esquemão... Acho que cometi uma inconfidência.</p>
<p>- Que esquemão é esse?</p>
<p>- Não sei de nada.</p>
<p>***</p>
<p>No meio da semana, quem sentou ao seu lado na mesa do bar foi o Pepe outra vez.</p>
<p>- O Fortuna quer falar com você sobre o esquema do Izail.</p>
<p>- Por quê?</p>
<p>- Porque ele também tem um esquema e quer comparar com o de vocês.</p>
<p>- Ele quer é copiar o nosso esquema.</p>
<p>- Não! O esquema do Fortuna é diferente. Ele só ficou sabendo que além do esquema o Isail tem um esquemão, uma espécie de controlador autônomo do esquema, e queria saber com funciona.</p>
<p>- Cada um que trate do seu próprio esquema.</p>
<p>- Olha, pode ter dinheiro na jogada. Você dá umas dicas pro Fortuna sobre o esquema do Izail e...</p>
<p>- Ó Pepe, eu tenho cara de quem trai um esquema?</p>
<p>- Mas...</p>
<p>- Quer deixar eu beber o meu chope?</p>
<p>*** </span></div>
<div class="para" style="text-align:justify;">
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Na sexta-feira seguinte, fim de uma semana pesada, calor, cansaço, e várias pessoas vieram pedir informação sobre o esquema do Izail. O que era? Para o que era? Ele anunciou que não estava mais no esquema do Izail. O esquema do Izail estava sendo comentado demais, gente demais sabia do esquema do Izail. Era perigoso. Ele agora tinha o seu próprio esquema. Um aperfeiçoamento do esquema do Izail. Não adiantava perguntarem, ele não diria nada a respeito. Que o deixassem em paz. </span></div>
</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Obrigado, Fernando Henrique]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=518</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:17:27 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[Recebi um cartão de crédito novo para substituir um vencido. Junto, a instrução: ligar para 4001]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Recebi um cartão de crédito novo para substituir um vencido. Junto, a instrução: ligar para 4001-4828 para desbloquear o cartão.</p>
<p></span><span style="color:#888888;">Como sabe quem liga para um número destes, é preciso passar por um teste de atenção e reflexos, comandado por um robô com voz feminina, antes de merecer o direito de falar com um ser humano. De acordo com o assunto, digita um número, que leva a outra escolha de número, que leva a outra, e a outra, até — se você escolheu a seqüência certa — ser saudado por uma voz de gente, mas parente do robô, porque o tom é parecido, que pergunta em que pode servi-lo. Eu disse o que queria. Desbloquear o cartão novo que tinham me mandado. <!--more--><br />
Para minha segurança, disse a prima do robô, ela precisaria confirmar alguns dados. Numeração do cartão vencido. Numeração do cartão novo.</p>
<p>Meu número de RG. O número do meu CIC. O nome do meu pai. O nome da minha mãe. Gosta de iogurte? É ciumento? Não, esses dois itens eu estou inventando. Mas dei a informação pedida. Depois de uma pausa para consultar o computador, a voz disse:</p>
<p>— Senhor, os dados não estão corretos.</p>
<p>Examinei os números do cartão antigo e do novo. Eram aqueles mesmo. Meu RG era aquele mesmo. Meu CIC também. Será que eu passara a vida inteira chamando meu pai pelo nome errado? E o nome da minha mãe, era pseudônimo? Pouco provável. Eu disse para a voz que os dados estavam certos.</p>
<p>— Senhor, alguns dados não conferem com os que temos. Por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez. </span><span style="color:#888888;"><br />
— Mas eu estou com a documentação aqui e se ligar outra vez vou dar a mesma informação. </span></div>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">— Senhor, por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.<br />
— Quais são os dados que não estão certos? </span><span style="color:#888888;"><br />
— Senhor, não podemos dar essa informação.<br />
— Mas como é que eu posso corrigir um dado se não sei qual é o errado?<br />
— Senhor...</p>
<p>Finalmente descobri que podia passar um fax com cópias dos documentos que provavam que eu era eu. Foi o que eu fiz. Semanas depois recebi uma carta impressa, com um “x” marcando a razão pela qual meu fax era inaceitável: “Ilegível”. Mandei as mesmas cópias, bem nítidas, pelo correio. Passaram-se semanas. Liguei outra vez para o 4001-4828, para saber das novidades. A voz sabia do meu fax ilegível.</p>
<p>— Mas eu mandei uma carta depois.<br />
— Também estava ilegível.</p>
<p>Desisti de desbloquear meu cartão novo. Tudo bem. A vida moderna tem esses buracos negros tecnológicos, culpa de ninguém. Mas será que sabem o estrago que fizeram no amor próprio de um cronista, chamando-o repetidamente de ilegível? Foi por estar assim fragilizado que fiquei emocionado quando me contaram que o Fernando Henrique Cardoso, na sua entrevista no “Roda Viva” (não vi, estava vendo outro bom ator, o Marlon Brando, na Net), disse que eu não entendia de nada, mas escrevia bem. Eu e meu ego nos sentimos desagravados. Obrigado, Fernando Henrique!</p>
<p>Só um adendo. Há dias chegou uma correspondência do cartão de crédito, estranhando a minha demora em desbloquear o cartão novo.</p>
<p>Se não fosse uma carta impressa, sem uma assinatura humana, eu desconfiaria de ironia.</span></p>
</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[De areia]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=517</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:11:52 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[“Bonito o seu castelo de areia”, disse o homem para o garoto na beira do mar. “Não é castelo]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">“Bonito o seu castelo de areia”, disse o homem para o garoto na beira do mar. “Não é castelo”, respondeu o guri. “É um condomínio fechado”</p>
<p>O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo. Lembrou-se do seu orgulho quando terminava a construção, dando os retoques finais com areia molhada. Não importava que a construção fosse destruída logo em seguida, ou que a maré a destruísse durante a noite. Podia fazer outra. E se orgulhar de novo ao terminar seu castelo de areia.<br />
<!--more--><br />
- Bonito, o seu castelo de areia - disse o homem para o garoto.</p>
<p>O garoto olhou para o homem. Depois falou:</p>
<p>- Não é castelo.</p>
<p>- O que é então?</p>
<p>- Um condomínio fechado.</p>
<p>***</p>
<p>Mais tarde, no grupo que se reunia para um papo à beira-mar, todos mais ou menos da mesma idade, o homem contou que o que lhe parecera serem as torres do muro do castelo na verdade eram guaritas para os guardas do condomínio, segundo o garoto.</p>
<p>- Veja você. Um condomínio fechado... Que fim levaram os castelos de areia?</p>
<p>- A realidade do garoto é essa. No outro dia minha neta quis saber por que a Cinderela não deu o número do celular dela pro príncipe.</p>
<p>- O curioso é o pulo, de castelo para condomínio fechado. Do feudalismo para a paranóia contemporânea, sem etapas intermediárias.</p>
<p>- Quinhentos anos de arquitetura ignorados.</p>
<p>- Mas os castelos feudais não deixavam de ser condomínios fechados.</p>
<p>- E os condomínios fechados não deixam de ser fortalezas medievais.</p>
<p>- O garoto, na verdade, é um gênio da síntese.</p>
<p>*** </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;"> Pensando bem, por que nós só fazíamos castelos de areia, na idade dele? Podíamos fazer outras coisas.</p>
<p>- Eu comecei a fazer mulher nua bem cedo.</p>
<p>- Podíamos fazer coisas do nosso tempo, como o garoto. Arquitetura moderna. Mas fazíamos castelos feudais. Nós é que ignoramos a história. Éramos medievalistas renitentes. Desprezamos a revolução burguesa, a industrialização e todas as mudanças sociais e urbanísticas que vieram depois dos castelos feudais só pelo prazer de ornamentar aqueles torreões com rosquinhas de areia molhada.</p>
<p>- Não, não era só isso. Os castelos não eram apenas castelos. Evocavam muita coisa. Cavaleiros entrando e saindo. Arqueiros defendendo as muralhas durante os sítios. Atacantes sendo repelidos com óleo fervendo. E tudo o que acontecia lá dentro, na nossa imaginação. Os banquetes, os romances, os duelos, as intrigas. Nada parecido acontece dentro de um condomínio fechado de hoje.</p>
<p>- Sei não. No que eu moro acontece cada coisa...</p>
<p>***</p>
<p>No dia seguinte o homem avistou o garoto no mesmo lugar da praia. Viu com satisfação que ele dava os retoques finais na sua obra, fazendo escorrer areia molhada da mão nos pontos mais altos da sua construção. Talvez ele tivesse decidido fazer um castelo, afinal. Castelos eram irresistíveis, seu fascínio atravessava o tempo e as gerações. O homem perguntou se o que o garoto estava fazendo eram ornamentos para os torreões do castelo.</p>
<p>- Não - disse o garoto.</p>
<p>- O que é então?</p>
<p>- Antenas parabólicas.</p>
<p>O homem seguiu seu caminho, suspirando. </span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Lerdeza]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=516</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 03:00:45 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
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<description><![CDATA[A frase que o Everton mais ouvia da mãe era &#8220;levanta e vai buscar&#8221;, geralmente seguida ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>A frase que o Everton mais ouvia da mãe era "levanta e vai buscar", geralmente seguida de um epíteto, como "seu preguiçoso" ou, pior, "lerdeza". Porque o que o Everton mais fazia, atirado no sofá na frente da TV na sua posição de costume (que a mãe chamava de "estrapaxado"), era pedir para lhe trazerem coisas. Uma Coca. Uns salgadinhos...</p>
<p>- Levanta e vai buscar!</p>
<p>- Pô, mãe.</p>
<p>- Lerdeza!</p>
<p>O Everton já estava com quinze anos e era uma luta convencê-lo a sair do sofá e ir fazer o que os garotos de quinze anos fazem. Correr. Jogar bola. Namorar. Ou pelo menos ir buscar sua própria Coca.<br />
<!--more--><br />
- Esse menino um dia ainda vai se fundir com o sofá...</p>
<p>Everton não queria outra coisa. Ser um homem-sofá. Um estofado humano, alimentado sem precisar sair do lugar. E sem tirar os olhos da TV. E como era filho único, e insistente, sempre conseguia que lhe trouxessem o que pedia. Quando não era a mãe, sob protestos ("Toma, lerdeza, mas é a última vez") era Marineide, a empregada de vinte e poucos anos cujo decote era a única coisa que fazia o Everton desviar os olhos da TV, e assim mesmo por poucos segundos.</p>
<p>***</p>
<p>Um dia, estrapaxado no sofá, o Everton se deu conta de que estava sozinho em casa. A mãe tinha saído, o pai estava no trabalho, a Marineide de folga, e ele sem ninguém para lhe trazer uma Coca, uns chips de batata e uns Bis. Levantar-se e ir buscar estava fora de questão.</p>
<p>Fechou os olhos e concentrou-se. Concentrou-se com força. Depois de alguns minutos, ouviu ruídos vindo da cozinha. A geladeira abrindo e fechando. Uma porta de armário abrindo e fechando. Depois silêncio. Quando abriu os olhos, a Coca, os chips e os Bis pairavam no ar, à sua frente. Ele só precisou estender a mão.</p>
<p>***</p>
<div class="para">No dia seguinte, Everton testou seu poder recém-descoberto na Marineide, que até hoje não sabe como a sua blusa desabotoou sozinha e seu soutien simplesmente voou longe daquele jeito, e logo na frente do menino. Everton também acendeu a TV e mudou de canais sem precisar usar o controle remoto, e fez um vaso voar pela sala só com a força do seu pensamento. Apagou a TV e ficou, atirado no sofá, refletindo sobre o que significava aquilo. Ele era um fenômeno. Tinha um poder único - fazia as coisas acontecerem apenas pela sua vontade. Contaria aos pais, claro. Eles poderiam ganhar dinheiro com seu poder. O pai saberia como. Ele se transformaria numa celebridade. Cientistas do mundo inteiro o procurariam, sua capacidade extraordinária seria usada em benefício da humanidade. No combate ao crime, por exemplo. Nas comunicações. Na medicina a distância.</p>
<p>***</p>
<p>E se aquilo fosse, de alguma forma, um poder religioso? Até onde a revelação do seu dom milagroso seria um sinal de que ele tinha uma missão a cumprir na Terra? Até onde aquilo o levaria? Fosse o que fosse, uma coisa era certa. Ele teria que sair do sofá.</p>
<p>***</p>
<p>- Mãe.</p>
<p>- Ahn?</p>
<p>- Eu quero daquelas coisinhas de queijo. E uma Coca.</p>
<p>- Levanta e vai buscar.</p>
<p>- Pô, mãe.</p>
<p>- Tá bem. Mas esta é a última vez.</p>
<p>E já a caminho da cozinha:</p>
<p>- Lerdeza!</p></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Papos]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=515</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 02:57:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=515</guid>
<description><![CDATA[- Me disseram&#8230;
- Disseram-me.
- Hein?
- O correto e &#8220;disseram-me&#8221;. Não &#8220;me ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#888888;">- Me disseram...<br />
- Disseram-me.<br />
- Hein?<br />
- O correto e "disseram-me". Não "me disseram".<br />
- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é "digo-te"? - O quê?<br />
- Digo-te que você...<br />
- O "te" e o "você" não combinam.<br />
- Lhe digo?<br />
- Também não. O que você ia me dizer?<br />
- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a<br />
cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?<br />
- Partir-te a cara.<br />
- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.<br />
- É para o seu bem.<br />
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender.<br />
Mais uma correção e eu...<br />
- O quê?<br />
- O mato.<br />
- Que mato?<br />
- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?<br />
- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo e elitismo!<br />
- Se você prefere falar errado...<br />
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou<br />
entenderem-me?<br />
- No caso... não sei.<br />
- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?<br />
- Esquece.<br />
- Não. Como "esquece"? Você prefere falar errado? E o certo é "esquece" ou<br />
"esqueça"? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.<br />
- Depende.<br />
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não<br />
sabes-o.<br />
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.<br />
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso<br />
mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.<br />
- Por que?<br />
- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Duas Histórias]]></title>
<link>http://brunarangel.wordpress.com/?p=514</link>
<pubDate>Mon, 21 Apr 2008 02:54:51 +0000</pubDate>
<dc:creator>brunarangel</dc:creator>
<guid>http://brunarangel.wordpress.com/?p=514</guid>
<description><![CDATA[Homem senta num bar ao lado de um velhinho que lhe parece familiar. O velhinho está um caco mas, me]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Homem senta num bar ao lado de um velhinho que lhe parece familiar. O velhinho está um caco mas, mesmo assim, aquele bigodinho, aqueles olhos...<br />
- Desculpe, mas você não é o Adolf Hitler?<br />
- Sou.<br />
- Pensei que você tivesse...<br />
- Todo mundo pensou. Continuo vivo.<br />
- Aposto que você vive cheio de remorso pelo que fez.<br />
- Que foi que eu fiz?<br />
- Mas como? E os seis milhões de judeus que mandou matar?<br />
- Ach,eles. Já tinha me esquecido.<br />
- Quer dizer que se fosse começar outra vez, hoje, você faria a mesma coisa?<br />
- Não. Mandava matar seis milhões de judeus e dois acrobatas.<br />
- Por que dois acrobatas?<br />
- Viu como você esqueceu os judeus?</p>
<p>A tática, ajustada às devidas proporções, tem sido muito usada por aqui. Quando um assunto ameaça a se tornar um escândalo, ou quando um escândalo ameaça se tornar assunto, acrescente, rápido, dois acrobatas. Os acrobatas passam a ser o assunto. E os acrobatas não têm falhado muito, ultimamente, neste país de distraídos. Sua última aparição foi no caso do Eduardo Jorge. Lembra dele? Eduardo Jorge, aquele que era secretário particular do... O patriciado brasileiro sobrevive porque dominou a arte de mudar de assunto<br />
</span></p>
<div class="para" style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;">Outra história que eu gosto, tanto que repito sempre, é a do sortudo. Um sortudo extraordinário. Um sortudo de nascença que conseguia tudo o que queria sem qualquer esforço. Na escola, nos negócios, no jogo. E com as mulheres. Não era um homem especialmente sedutor, apenas tinha sorte. E foi acumulando conquistas amorosas, para desespero e inveja dos outros. Foram tantas as conquistas que um dia ele parou para fazer um inventário sexual e concluiu que de todos os tipos de mulheres no mundo, ele não faturara uma hindu. Ou é hindua? Enfim, uma moça da Índia. Por sorte, conheceu uma naquela mesma noite. E naquela mesma noite ela estava em sua cama, apresentando-o às mil maneiras de fazer o amor oriental. Até que, saciados, os dois dormiram. O sortudo acordou mais cedo. Ficou olhando o rosto da moça, que dormia profundamente. E viu que ali estava a oportunidade de descobrir uma coisa que sempre o intrigara. O que é aquele sinal que as mulheres da Índia têm no meio da testa?<br />
Então o sortudo raspou o sinal da testa da moça com a unha – e ganhou um Gol zero quilômetro!</span></div>
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