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	<title>epopeia &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/epopeia/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "epopeia"</description>
	<pubDate>Sat, 06 Sep 2008 16:16:56 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

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<title><![CDATA[Getz/Gilberto: A Epopéia]]></title>
<link>http://thesoundscape.wordpress.com/?p=9</link>
<pubDate>Sun, 22 Jun 2008 02:01:44 +0000</pubDate>
<dc:creator>Soundscape</dc:creator>
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<description><![CDATA[Antes de começar o post, devo informar aos navegantes que está não é uma viagem como as outras, ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;">Antes de começar o post, devo informar aos navegantes que está não é uma viagem como as outras, nem é um disco como os outros, então ele merece uma licença poética e, é claro, um post completamente fora do padrão. Não haverá batida de martelo pelo simples fato de que este é um disco que fala por si próprio, e como fala. Desta forma, decidi nomear esse tipo de post de epopéia (não sei quando nem se haverá outro, mas estes terão este nome), afinal, feito heróico desse tipo merece um lugarzinho só pra ele, seja na sua estante de discos, na sua lista de mp3 ou mesmo aqui no blog.</p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/9/96/Getz-gilberto.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" style="vertical-align:middle;" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/9/96/Getz-gilberto.jpg" alt="" width="180" height="180" /></a></p>
<p>Nos dias 18 e 19 de março de 1963, algumas pessoas reuniram-se no estúdio de gravação A&#38;R e criaram o álbum que, para muitos, é o maior da bossa nova em todos os tempos. Ou o maior disco de bossa nova gravado fora do Brasil. Claro que, enquanto o estavam gravando, eles nem imaginavam o tamanho da façanha (ou do buraco), e nem que o disco seria um divisor de águas na vida de todos os envolvidos. Ta, alguns talvez apenas desconfiassem disso.</p>
<p class="MsoNormal">Os culpados foram o saxofonista (tenor) americano Stan Getz, o pianista e compositor Tom Jobim, o violonista e cantor João Gilberto, o contrabaixista Tião Neto, o baterista Milton Banana, Astrud (mulher de João Gilberto) e Mônica Getz (mulher de Stan Getz).</p>
<p class="MsoNormal">Getz/Gilberto seria gravado na seqüência do já então polêmico show de bossa nova no Carnegie Hall, que acontecera havia menos de quatro meses. Tom, João Gilberto e Milton Banana foram alguns dos poucos músicos brasileiros que tinham ido para Nova York para o show e resolvido continuar por lá, enfrentando o frio, a solidão, a saudade do Rio, das garotas de Ipanema e, é claro, do feijão.</p>
<p class="MsoNormal">No final das contas, esse show foi “aclamado” (se é que esta é a palavra) como um enorme fiasco mesmo contando com nomes como Sérgio Mendes, Roberto Menescal entre outros. Quando os que decidiram voltar para o Brasil aqui chegaram, enfrentaram logo um batalhão de repórteres querendo saber mais sobre o tal fracasso do concerto, querendo explicações e todas aquelas coisas de mídia. Tom e João discordavam dessa opinião da mídia, mesmo assumindo a desorganização que tinha tomado conta do palco naquela noite, mas com o ponto positivo de terem chamado atenção de outros grandes nomes como Bill Evans, Miles Davis, Dizzy Gillespie e Quincy Jones e, por conta disso, decidiram que ainda não era hora de voltar. Na verdade, segundo o que conta a história, o que realmente aconteceu foi que o produtor do evento não pagou á eles um centavo sequer e, dessa forma, os dois ficaram para receber o que ele os devia. Mandaram buscar as esposas e ficaram vivendo em Nova York com seu próprio dinheiro.</p>
<p class="MsoNormal">Nesse meio tempo tem uma história “intermediária” que conta que, enquanto as esposas não chegavam, Tom foi “adotado” por Gerry Mulligan e Gene Lees (autor da versão em inglês para Desafinado e Corcovado). Conta a história de que os trÊs andavam de boteco em boteco sempre grudados. A dupla de americanos não demorou muito a perceber três talentos do compositor: a sua musicalidade, a velocidade com a qual aprendia inglês e a sua capacidade cúbica – ou seja, a capacidade dele tomar o triplo de whisky que eles. Conta a história também de que Tom adorava freqüentar esses botecos para ficar amigo dos cozinheiros e garçons (normalmente de origem latina) e poder aproveitar de um pouco do arroz e feijão que eles faziam para os empregados na cozinha.</p>
<p class="MsoNormal">Enquanto isso, Stan Getz vivia na maior boa vida trazida pela maré de boa sorte que veio junto com a bossa nova. Isso porque sua carreira tinha ido para o buraco, afogada em álcool e entorpecida em drogas, e ele agora comemorava o sucesso do álbum com Charlie Byrd (Jazz Samba), que havia entrado na lista dos mais vendidos e ficaria 70 semanas em 1º lugar, esbanjando dinheiro e vivendo como um rei, principalmente por conta do empresário, que já planejava uma sucessão de discos e injeção de dinheiro na bossa nova do gringo.</p>
<p class="MsoNormal">Nesse misto de golpe de sorte com o álbum e investimento alto do empresário, o disco com Tom e João Gilberto foi acertado. Os álbuns seguintes a Jazz Samba (Big Band Bossa Nova – que de bossa nova só tem o título – e Jazz Samba Encore! – que foi um fracasso segundo as expectativas do empresário e do músico) não obtiveram a aceitação do público que Stan Getz e seu empresário almejavam, só que o álbum com Tom e João Gilberto já havia sido acertado e, para não quebrar o contrato, eles resolveram não pular fora, mas já com um clima de jogo perdido no ar. Nunca dois homens se enganaram tanto... Afinal, quem é que imaginaria que aquele álbum é que seria o começo de tudo? Tamanha foi a broxada que Getz e seu empresário deram com essa dupla de ataque Getz e Bossa Nova que, para cortar custos, partiram para a gravação no maior e melhor estilo ao vivo, com todo mundo tocando junto e, caso alguém errasse, seria necessário que a faixa fosse completamente regravada. Mas, ah, ninguém ali era de errar...</p>
<p class="MsoNormal">A gravação do disco Getz/Gilberto, que tinha tudo para ser relax, de relax não teve nada. Mesmo com o clima de jogo perdido que imperava “secretamente” entre Getz e seu empresário, eles não contavam com um detalhe: o perfeccionismo dos brasileiros que eles tinham escolhidos para a gravação.</p>
<p class="MsoNormal">João Gilberto simplesmente não se satisfazia com a emissão sonora do sax de Getz, a achava muito enfática se comparada à delicadeza da bossa. Por isso, a todo instante a gravação era parada com uma reclamação de João Gilberto, que ficou famoso também pela chatisse tempos depois. Getz não entendia e João falava entre os dentes para Tom: “Tom, diga a esse gringo que ele é muito burro!” e Tom, claro, tentando amenizar o clima, repassava a Getz: “Ele está dizendo que é uma honra gravar com você”, mesmo sob as desconfianças de Getz por conta do tom de voz que João Gilberto usava.</p>
<p class="MsoNormal">Custou muito até que João Gilberto conseguisse fazer com que Stan Getz soasse ao sax quase como se sussurrasse. Isto é, pelo menos nas gravações, já que algum tempo depois, já na mixagem do disco, Stan Getz pediu ao técnico que aumentasse seus solos e, como os brasileiros não estavam lá, conseguiu deixar com a intensidade que ele gostava e que João Gilberto detestava.</p>
<p class="MsoNormal">Com todas as indas e vindas e as inúmeras interrupções, inclusive para esporádicas escapadas à um boteco ao lado do estúdio, as oito faixas de Getz/Gilberto foram gravadas e aqueles 34 minutos de beleza estavam eternizados. O disco inteiro, pelo menos o que entrou no disco, foi gravado em dois dias, cabendo a cada dia a gravação de quatro músicas.</p>
<p class="MsoNormal">Nesse ambiente é que aconteceu uma das maiores lendas da bossa nova e da música popular brasileira: a história da carochinha sobre a dona de casa, jovem e despretensiosa, que foi ocasionalmente chamada para gravar uma pequena participação e, dali, disparou para tornar-se um fenômeno de vendas no mercado americano. Quem era a dona de casa? Astrud Gilberto, claro.</p>
<p class="MsoNormal">Acontece que, segundo se conta, Astrud não estava por acaso no estúdio naquele dia e nem era tão despretensiosa assim. Ao contrário, sempre quis ser cantora e, desde que se casou com João Gilberto, ele a preparava para isso. Aconteceu que João Gilberto, a pedido da esposa, sugeriu a Stan Getz que a deixasse cantar a versão em inglês para Garota de Ipanema, o que não deixou Stan Getz muito animado, mas que fez com que o empresário visse ali uma ótima chance de promover o álbum, sendo dessa forma aprovada. Logo em seguida, Tom sugeriu que ela também cantasse a versão que seu amigo havia feito para Corcovado e assim, ambas foram gravadas.. Tempos depois, Stan Getz declararia que Tom e João não queriam que Astrud cantasse e que, se não fosse por ele, ela nunca teria sido descoberta. Ta...</p>
<p class="MsoNormal">Mesmo com esses estalos que o empresário tinha tido na gravação do disco, ao ser terminada a gravação, ele pagou todo mundo e simplesmente engavetou o disco, indo produzir outros discos. Os músicos “desbaratinaram” e foram tratar de outras coisas. Tom, por exemplo, passou por poucas e boas e acabou até tocando violão em algumas gravações para salvar unzinho no final do mês. João Gilberto aceitou o convite de João Donato e foram fazer uma temporada no sul da Itália, levando junto Tião Neto, Milton Banana e, é claro, Astrud Gilberto, que ainda ninguém conhecia e que viajou no papel de simples esposa de João.</p>
<p class="MsoNormal">O ano correu e, em julho, Tom embarcou de volta num navio para o Brasil. Na Itália o casal João e Astrud se separaram, indo literalmente um para cada lado – João para Paris e Astrud para o Rio. Em Paris, João Gilberto conheceu Miúcha e a convidou para ser sua secretária quando voltasse para Nova York. Em novembro, finalmente Getz/Gilberto saiu da gaveta. O empresário colocou pra ouvir e gostou do que ele tinha ali. Quanto mais ouvia, mais gostava. Mesmo a febre da bossa nova já tendo passado nos Estados Unidos, o empresário decidiu arriscar, afinal, o que ele tinha a perder? Ele tratou de prensar o álbum na íntegra e amputou as duas faixas com Astrud (The Girl From Ipanema e Quiet Night Of Quiet Stars) da participação de João Gilberto e ainda de quebra as deixou com um tempo mais convidativo para as rádios tocarem. Tratou de incluir o disco no suplemento “latino” da Verve e, em fevereiro de 1964, disparou a primeira cópia do single para uma pequena estação de jazz. Dias depois recebeu um telefonema do programador: os ouvintes não paravam de ligar para a estação, perguntando o que era “aquilo”.</p>
<p class="MsoNormal">No Brasil, em 1964, Garota de Ipanema podia ser qualquer coisa, menos uma novidade. Todo mundo já tinha gravado, e em todos os formatos possíveis e imagináveis: cantor-solo, trio de jazz, conjunto vocal, dupla de cantos, quarteto de cordas, orquestras de tamanhos variados e com arranjos sinfônicos. Enfim, de tudo quanto é jeito. Mas o mais impressionante é que, além de todos já terem gravado e todos já estarem cansados de ouvir, NINGUÉM esperava aquela versão com Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim, Milton Banana, Tião Neto e Astrud Gilberto. Ninguém no Rio, em Nova York, em Istambul ou em qualquer outra parte do mundo esperava por <em>aquilo. </em>Se o feito de Jazz Samba parecia inalcançável e a onde da bossa nova parecia ter sido apenas algo passageiro, o que dizer então de um disco que ficou em 2º lugar dentre os mais vendidos por 96 semanas? O primeiro lugar em todas as listas de 64 pertenceu a algum álbum dos Beatles, dos vários lançados naquele ano. Mas, ainda assim, Getz/Gilberto alcançou um feito que até hoje não foi atingido: é o álbum de jazz mais vendido de todos os tempos. Não só vendido como respeitado também.</p>
<p class="MsoNormal">Tamanho foi o barulho que esse disco causou que, em poucos meses, Stan Getz comprou uma casa de 23 quartos, João Gilberto embolsou módicos 23 mil dólares de saída. Já Astrud Gilberto ganhou o referente à tabela do Sindicato dos Músicos de Nova York: 168 dólares por dois dias de trabalho – e, ainda assim, Stan Getz achou demais.</p>
<p class="MsoNormal">Com The Girl From Ipanema tocando em todas as rádios, lojas de discos, máquinas automáticas, vitrolas domésticas, sistemas de som, torradeiras, carrinhos de cachorro-quente e bueiros de Nova York, seus criadores tiveram de voltar correndo para lá.</p>
<p class="MsoNormal">Stan Getz, mais do que depressa, mandou chamar Astrud no Rio e deu início á uma longa temporada de shows nos Estados Unidos. Não demorou muito para que Astrud se livrasse do “encosto” e desse início ás gravações de seu primeiro álbum solo (que foi sucedido por outros mais á frente), que acabou se tornando sinônimo dos anos 60 nos Estados Unidos. Tom também voltou para os Estados Unidos para participar do primeiro disco de Astrud, assim como para gravar uma série de grandes álbuns dele mesmo. A partir dali, ninguém mais segurou o fenômeno Tom Jobim. Quanto a João Gilberto, que já estava por lá, foi convidado por Stan Getz para um show que resultou num Getz/Gilberto #2 bem tímido e sem comparações com o primeiro. Á partir de 65, João Gilberto caiu na estrada acompanhado de gente grande como o pianista Bill Evans, mas já sem Stan Getz.</p>
<p class="MsoNormal">O empresário do famigerado Getz/Gilberto deu início a mais uma fase de discos de bossa nova, gravando os discos de Astrud, três dos que considero alguns dos melhores discos de Tom: Wave, Tide e Stone Flower, além de gente grande como Airto Moreira e Eumir Deodato, que teve até música no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço saída de um dos álbuns dessa safra pós-Getz/Gilberto.</p>
<p class="MsoNormal">Por causa de Getz/Gilberto, a América adotou João Gilberto, Tom Jobim e Astrud Gilberto, absorveu-os e tratou-os como se eles fossem seus. E, por muito tempo, pareceu que eles eram mesmo. Entre Estados Unidos e México, João Gilberto ficou 20 anos fora do Brasil.Tom ia e voltava – e, numa dessas, gravou dois álbuns com Sinatra – até o fim, em 94. Já Astrud nunca mais voltou. Mais tempo se passou e, além de Tom, morreram Getz, Tiãoe Milton Banana. Garota de Ipanema, a canção propriamente dita, é que ficou imortal: tornou-se a primeira ou a segunda mais tocada no século inteiro, alternando com um Beatles, é claro. Já Getz/Gilberto, que nunca saiu de catálogo, inscreveu-se num pequeno panteão de perfeições criadas pelo homem (e, no caso, uma mulher), à margem e apesar de si mesmo. Perfeições que, um dia, esse homem terá de fazer por merecer.</p>
<p class="MsoNormal">
<p>Download do álbum (link do <a href="http://umquetenha.blogspot.com/" target="_blank">Um Que Tenha</a>):</p>
<p><strong>Como usar o protetor de links Lix.In</strong>:<br />
Se pedir que se digite uma senha, faça assim:<br />
- respeite os caracteres maiúsculos<br />
- clique no botão “continue” em vez de apertar a tecla “enter”<br />
Se você não respeitar essas regras, o pedido de senha se repete continuamente.</p>
<p><strong>Como usar a senha do Rapidshare</strong>:<br />
Ao baixar o arquivo, quando o Rapidshare pedir a inclusão da senha, escolha SOMENTE as quatro letras que tiverem um GATO sobre elas (as figuras são diferentes, há cães e gatos, reparem bem).</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;" align="center"><strong><a href="http://lix.in/a279d09a" target="blank"><span style="font-family:Georgia;color:#000000;">Download do Álbum</span></a></strong></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Afroépicos ]]></title>
<link>http://ambidestria.wordpress.com/?p=195</link>
<pubDate>Wed, 21 May 2008 07:45:44 +0000</pubDate>
<dc:creator>Bruno Mendes</dc:creator>
<guid>http://ambidestria.wordpress.com/?p=195</guid>
<description><![CDATA[Das gregras Odisséia e Ilíada já ouvimos falar bastante, bem como da posterior e ainda antiqüís]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Das gregras <em>Odisséia </em>e <em>Ilíada </em>já ouvimos falar bastante, bem como da posterior e ainda antiqüíssima romana <em>Eneida</em>. As indianas <em>Mahābhārata </em>e <em>Ramayana </em>são menos famosas, entretanto vez ou outra são comentadas. As recentes velhas histórias que agora procuram se encaixar na estante empoeirada entre as ancestrais epopéias são as africanas <em>Pui </em>e <em>Dausi</em>, cantadas pelos <em>griots</em>, seus aedos de ébano.</p>
<p style="text-align:justify;">Todas têm em comum o fato de se originarem de uma tradição oral. São histórias que passaram de geração a geração, incorporadas de carga cultural e função educativa e moldadas constantemente até serem transplantadas para a forma escrita. Se para Walter Benjamin o verdadeiro narrador acabou com a introdução da literatura escrita, talvez ele ficasse feliz em saber que diversas regiões do mundo ainda dispõem de tradicionais contadores de história. Até recentemente, a África era um desses lugares, devido a sua alta taxa de analfabetismo - fruto da ausência histórica de uma técnica ou um sistema local de escrita somada ao secular, quase milenar, julgo imposto ali pelas nações "civilizadas". Dentre os poucos alfabetizados, a maioria o era em línguas européias, empurradas úvula abaixo. Pouquíssimos eram os letrados nos próprios idiomas africanos, notadamente os subsaarianos, dado que o Árabe do norte do continente tem sua origem no Oriente Médio.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, a transmissão dessas epopéias continuou ainda por muito tempo sendo feita de forma oral, à moda da história antiga. Curiosamente (ou talvez obviamente), não foram africanos os pesquisadores que descobriram essas obras e iniciaram o processo de seu registro impresso para divulgá-lo ao mundo. Os precursores foram dois etnólogos africanistas alemães - Leo Frobenius (1873-1938), que traduziu as epopéias para o Alemão, e Hermann Baumann (1902-1972), que montou uma coleção com cerca de 2500 lendas e mitos africanos - e um britânico - Robert Sutherland Rattray (1881-1938), especializado na cultura da etnia <em>Ashanti</em>, que se encontra em Gana.</p>
<p style="text-align:justify;">Foi um trabalho nada fácil, afinal de contas são muitas línguas e inúmeros dialetos falados em toda a área pesquisada por eles. Além disso, principalmente para Baumann, interesses políticos tumultuaram seus trabalhos, pois o partido nacional-socialista alemão pretendia fortemente utilizar seus estudos étnicos para utilizá-los numa possível política neocolonial - mas isso é assunto que vai além do que se pretende apresentar aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">No caso das epopéias, o principal trabalho foi feito por Frobenius (hoje nome de um instituto de pesquisas etnológicas em Frankfurt). Realizou diversas expedições pela África com o apoio de missionários, com os quais a duras penas se comunicava. Ele próprio não falava nenhuma língua africana. Deixava os habitantes dos vilarejos narrarem suas histórias a guias locais, que as traduziam para Inglês ou Francês. A partir dessas anotações, fez a tradução para o Alemão tanto de <em>Pui</em>, como de <em>Dausi</em>, que, junto de outros diversos contos e canções, servem de interesse primordial para os estudos etnográficos acerca da região.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Pui </em>e <em>Dausi </em>foram originalmente transcritos na língua <em>Soninke</em>, difundida na região do Sahel, na parte ocidental da África. <em>Pui </em>é um conjunto de canções heróicas e divide-se em um total de doze partes, das quais apenas oito são ainda conhecidas. Não há uma dependência direta entre os enredos de cada parte, porém tratam geralmente de heróis, reis, príncipes e princesas, que defendem a terra através de guerras.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Dausi </em>são poemas épicos cantados por bardos. A parte principal possui 150 versos, sem uma metrificação regular. Trata-se de um poema sobre um reino <em>sonike</em> chamado Wagadu, cuja capital Kumbi seria antigamente também a do legendário Reino de Gana. Quem canta os poemas é um filho do rei. O reino cai por terra; um outro filho do rei, com a ajuda de um tambor mágico, uma hiena e um abutre, constrói uma nova cidade, que será a capital Kumbi, numa região pertencente a uma serpente, que faz a terra rica através de sua chuva de ouro. Para isso, no entanto, ela exige que todo ano uma virgem seja sacrificada. Contudo, o amado de uma virgem a ser oferecida como próximo sacrifício revolta-se e mata a serpente. Por isso, Wagadu cai e a moça morre e tudo se perde. É interessante notar que existem aí elementos típicos dos poemas épicos (como uma serpente no papel de uma espécie de deus, que só ajuda a quem o teme, e o inconformismo de um indivíduo com o destino de sua amada, que o faz romper com seu "deus"), porém com uma pitada de tragédia, sem, todavia, aparecer por fim a redenção proveniente da catarse. Fica a reflexão: como tradições orais tão distantes geograficamente poderiam apresentar esses aspectos em comum? Haveria alguma influência da cultura européia nessas epopéias tão tardiamente descobertas? Ou trata-se simplesmente de um desenvolvimento natural da cultura humana, independente de raças?</p>
<p style="text-align:justify;">Seja como for, por sua dedicação aos estudos africanísticos e por considerar as culturas da África e da Europa igualmente valorosas, Frobenius influenciou uma geração de intelectuais africanos. Segundo o poeta e ex-presidente senegalês Léopold Senghor, um dos fundadores do movimento <em>Négritude </em>(que defendia o rompimento com a Europa e a retomada da tradição cultural africana - <em>le "retour aux sources!" </em>), Frobenius "devolveu à África sua dignidade e sua identidade". Situação bem curiosa essa.</p>
<p style="text-align:left;">
<p style="text-align:left;">
<p style="text-align:left;"><strong><span lang="EN-US">Referências</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span lang="EN-US">CONRAD, David C. &#38; FISHER, Humphrey J. <em>The Conquest That Never Was: Ghana and the Almoravids, 1076. II. The Local Oral Sources</em> in <em>History in Africa</em>, Vol. 10, New Brunswick, 1983.</span></p>
<p style="text-align:justify;">FROBENIUS, Leo. <em>Atlantis VI: Spielmannsgeschichten der Sahel</em>, Jena, 1921.</p>
<p style="text-align:justify;">FROBENIUS, Leo &#38; FOX, Douglas C. <em>A gênese africana : contos, mitos e lendas da África</em>, tradução de Dinah de Abreu Azevedo, Landy, São Paulo,  2005.</p>
<p style="text-align:justify;"><span lang="DE">SEIDLER, Christoph. <em>Wissenschaftsgeschichte nach der NS–Zeit: das Beispiel der Ethnologie</em>, Magisterarbeit, Freiburg, 2003</span></p>
<p style="text-align:justify;">http://de.wikipedia.org/wiki/Afrikanische_Literatur</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Capítulo 2]]></title>
<link>http://vainalousachefe.wordpress.com/2007/08/13/capitulo-2/</link>
<pubDate>Mon, 13 Aug 2007 20:22:15 +0000</pubDate>
<dc:creator>Gabriel Marcondes</dc:creator>
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<description><![CDATA[Fui convidado para uma convenção de físicos astrônomos. Não que eu tivesse algum conhecimento d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Fui convidado para uma convenção de físicos astrônomos. Não que eu tivesse algum conhecimento da área, mas pelo coffee-break mesmo. O ano era 3811 "D.C.", que ninguém sabe o que significa.</p>
<p>E foi lá que eu descobri alguma coisa de modo bem desagradável. Tão desagradável que eu nem me lembro mais o que era. Perdi a memória, quebrei um braço e tive um pé amputado.</p>
<p>Passei 130 anos em coma. Acordei ano passado. Agora, sou motorista. De ônibus espacial- nem precisa mais ter conhecimento pra isso atualmente. Eu faço a linha Andrômeda-Terra, que é como uma Penha-Lapa: já foi a maior em extensão, hoje perde pra várias; mas ainda é importante.</p>
<p>De resto mais nada. Agora você pode ler o Epílogo.</p>
<p>E assim acabou a minha história espacial.</p>
<p>-----------------------------------------------------------------</p>
<p>Leia mais na categoria Epopéia, no barra lateral.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Capítulo 1]]></title>
<link>http://vainalousachefe.wordpress.com/2007/06/22/capitulo-1/</link>
<pubDate>Fri, 22 Jun 2007 16:04:31 +0000</pubDate>
<dc:creator>Gabriel Marcondes</dc:creator>
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<description><![CDATA[Dizem que já se passaram alguns milhares de milhões de voltas. Uma pessoa comum só vê algumas, r]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Dizem que já se passaram alguns milhares de milhões de voltas. Uma pessoa comum só vê algumas, raramente chegando a cem. A única "coisa" que posso dizer que viu todas é justamente a razão das voltas: uma grande massa de hélio de cor amarela e forma próxima a esférica.</p>
<p>A chamamos de Sol. Algumas culturas o adoraram no passado, diziam ser o centro do cosmos, e a fonte de toda a energia da vida, e que assim também eram todas as estrelas para seus planetas. Os sóis eram semi-Deuses que governavam cada pedaço do Universo onde havia vida, o que não é pouco.</p>
<p>Outras culturas, a maioria, não o idolatravam, nem a ele nem a nada. Após dez mil voltas da nossa Terra em torno dele, acharam que já tinha passado da hora de ficarem adorando seres e divindades que nunca viram e quase não agiam. Em nome da prática, resolveram gastar seu tempo com assuntos mais úteis, como trabalhar para conseguir dinheiro e sustentar a família, e não mais torcer para a comida cair do céu. Isso trouxe mais auto-estima para os chefes de família; antes, a pessoa sofria trabalhando, pagava as contas, e no fim tudo que tinha era graças a alguém que nunca aparecia.</p>
<p>De todo jeito, as religiões e crenças serviram como guia para muitos povos, e não se pode dizer que fracassaram. Foi bom enquanto durou e teve utilidade. Agora só existe uma.</p>
<p>E por que falei do Sol e das nossas voltas em torno dele? Porque a religião que sobrou é a daqueles que vivem com ódio da nossa estrela, e dizem que há alguns milhares de anos atrás ele foi o responsável por um evento que quase destruiu a vida humana, dizimando toda uma próspera cultura que já existia no planeta havia um bilhão de anos. Seu fundador teria sobrevivido à tragédia e ajudado a recriar a civilização humana como conhecemos hoje.</p>
<p>Claro, o resto do mundo achava aquilo uma idéia absurda. Eu também achava, até descobrir, de maneira bem desagradável, que a maioria estava errada.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Prólogo]]></title>
<link>http://vainalousachefe.wordpress.com/2007/06/12/prologo/</link>
<pubDate>Tue, 12 Jun 2007 23:49:27 +0000</pubDate>
<dc:creator>Gabriel Marcondes</dc:creator>
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<description><![CDATA[Senti um formigamento na mão. Olhei pra ela e vi um pequeno corte que aumentava bem devagar.
Mas n]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Senti um formigamento na mão. Olhei pra ela e vi um pequeno corte que aumentava bem devagar.</p>
<p>Mas não vi ali dentro nem sangue, nem carne, nem osso: eu vi o nada. Fui o primeiro ser humano a ver o nada.</p>
<p>O corte aumentava, com velocidade crescente. Então ele se expandiu além da minha mão, e começou a dividir o que estava à minha frente, e eu via cada vez mais do nada.</p>
<p>Nesse instante, tudo que os físicos ainda não tinham descoberto fez diferença. E, mesmo que já soubessem de tudo, nem todos os humanos juntos poderiam parar o rasgão do espaço-tempo.</p>
<p>E o Universo se dividiu, mais uma vez.</p>
<p>----</p>
<p>Adicionei uma categoria nova- "epopéia", onde, quem sabe, continuarei essa história. Lá também está o "Epílogo Inicial", o primeiro post da série.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Epílogo Inicial]]></title>
<link>http://vainalousachefe.wordpress.com/2006/11/08/epilogo-inicial/</link>
<pubDate>Wed, 08 Nov 2006 21:55:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>Gabriel Marcondes</dc:creator>
<guid>http://vainalousachefe.wordpress.com/2006/11/08/epilogo-inicial/</guid>
<description><![CDATA[E John lembrou-se que já fazia muito tempo desde a última vez que dirigira seu olhar ao nosso Sol.]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>E John lembrou-se que já fazia muito tempo desde a última vez que dirigira seu olhar ao nosso Sol.</p>
<p>E pensou em como ele sempre aparecera tão brilhante e amarelo, e em como era esquisito que uma bola amarela irradiasse luz branca.</p>
<p>Então resolveu olhar mais uma vez. Era uma bela tarde ensolarada. Uma hora da tarde, no horário de verão. E resolveu também que aquela olhada iria valer por todos os dias em que ele se esqueceu de olhar.</p>
<p>E se encantou com o Sol, e aquela olhada também valeu por todos os dias em que ele não poderia mais ver. Nem o Sol, nem a Lua.</p>
]]></content:encoded>
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